11.8.10

“Minha mãe diz que sou um acidente de percurso [em sua vida]”


Por graça de Deus, trabalhamos na área da educação. Por essa razão, temos oportunidade de conversar com muitos adolescentes e jovens. Essas conversas acabam por revelar muito sobre a vida; especialmente sobre a família.

Recentemente, numa das vezes em que tivemos a ocasião de conversar com uma aluna, ela nos revelou informações que, apesar de particulares, pintam o triste porém real retrato de uma considerável parcela da família brasileira. Por que não dizer que a Luciana* como que desenhou o quadro daquilo em que a família brasileira está, paulatinamente, se transformando e cuja causa muitos creem, infelizmente, ser normal?

A cena para a conversa era a seguinte: sala de aula, cerca de seis pessoas presentes, momento pós-prova; restam somente alunos que almoçarão na escola e aguardam o horário para isso. Participam do diálogo, mais diretamente, a Luciana, uma colega e um de seus professores.

Luciana não tinha um comportamento exemplar em sala de aula. Geralmente conversava muito, deixava de fazer as atividades e, às vezes, se comportava de modo apático. A regra geral era que se tratava de uma aluna com baixíssimo rendimento, posto que estudasse num colégio particular, cujo ensino seria melhor (pelo menos, teoricamente).

Visto que ela acabou sendo questionada, durante essa conversa, acerca do que sua mãe faria caso soubesse que ela, Luciana, não se sairia bem naquela prova que acabara de “realizar”, a estudante respondeu, para espanto nosso: “Se minha mãe for brigar comigo ou for falar com meu pai por causa da prova, eu chantageio ela”. Na sequência, nós a sondamos, perguntando-lhe de que maneira ela chantagearia sua mãe. A menina completou: “É que eu sei uns podres dela”.

Na explicação da podridão materna, a discente acabou por revelar também a paterna e, quem sabe, a nacional (em grande parte). Que pena! Mas se trata de uma realidade. Luciana disse, por exemplo, que seus pais tinham se separado havia certo tempo. Antes disso, seu pai orientava que Luciana não mentisse, enquanto ele o fazia. A menina se questionava, sem compreender, pois sua idade era tenra. Sua mãe fazia o mesmo que o marido... isso sem falar nas brigas...

Após o divórcio, que se deu, claro, por razões obviamente imagináveis, o pai de Luciana arranjou logo uma namorada (para usar as palavras de Bandeira), com quem “se casou” e teve outro filho. Enquanto isso, a mãe dela também se casava e dava mais um irmão de pai diferente a Luciana. Ao mesmo tempo, repetia – como uma goteira na poça d’água – para Luciana: “Eu tive você muito nova. Eu e seu pai ainda não éramos casados. Você é um acidente de percurso na minha vida! ...”.

Para resumir a conversa que tivemos, visto que a menina abriu o coração naquele curto espaço de tempo (no mínimo, era também carente de conversa dentro de casa) em sala de aula, Luciana disse que seu pai se separou também da nova “esposa”, bem como sua mãe, do novo esposo. Pouquíssimo tempo depois, o pai da estudante se engraçou com outra mulher, que passou a ser sua namorada e que ficou grávida. Ele, portanto, em pouco tempo, já era pai de três, sem estar casado com nenhuma das mulheres.

Como está a cabeça de Luciana? Qual a formação que essa menina está recebendo? Quais são os valores que ela tem visto prevalecer na vida?

Infelizmente, a grande verdade é que algo análogo, senão exatamente igual, ocorre do Oiapoque ao Chuí. E a pergunta que nos vem à cabeça é: como temos criado nossos filhos? Será que os crentes em Jesus temos feito como Manoá, pai de Sansão (Jz 13), isto é, pedido orientação de Deus para educar nossos filhos? Ou será que também no caso da educação queremos copiar Davi, o qual foi na maior parte do tempo um contraexemplo como pai?

Será que os pais cristãos também têm dado brechas na criação de seus filhos? A exemplo do que Luciana disse que, se fosse preciso, chantagearia sua mãe visto que sabia dela “podres”, nossos filhos têm também recebido um mau exemplo dentro de casa a ponto de verem coisas podres em nós? Como temos feito dentro de casa? Onde estamos mostrando a eles as coisas contra as quais não há lei, isto é, o  fruto do Espírito: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança? Onde?


Infelizmente, milhares dos que cristãos se dizem ser fazem aquilo que a pedagogia cunhou de “terceirização da educação”. E terceirizam toda a educação. Deixam os filhos serem doutrinados pelo mundo, que inteiramente jaz no maligno (1 Jo 5.19 ARA.). O mundo todo está sob o poder do maligno. Não podemos deixar que o diabo doutrine nossos filhos! Qual educação temos oferecido dentro de casa? Isso sem falar no amor, que faltava!

A quem temos imitado nesse tocante? Aos fariseus (Mt 23.2,3)? Ou a Jesus Cristo (At 1.1)? A recomendação de Paulo a seu filho na fé, Timóteo, bate com nossa vida diante de nossos filhos (1Tm 4.12), ou nossos apelidos poderiam ser “pais de Luciana”?

Miseravelmente, muitos de nós ainda não entenderam que a recomendação bíblica é: “Que todas estas palavras que hoje lhe ordeno estejam em seu coração. Ensine-as com persistência a seus filhos. Converse sobre elas quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar. Amarre-as como um sinal nos braços e prenda-as na testa. Escreva-as nos batentes das portas de sua casa e em seus portões” (Dt 6.6-9 NVI).

Infelizmente, muitos de nós ainda não entenderam que a recomendação bíblica também é: “E vós, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor” (Ef 6.4).

Precisamos mudar esse quadro! Temos de arregaçar as mangas e, com a ajuda e orientação do Senhor (Jo 15.5 “in fine”; Jz 13), uma vez que sem isso os filhos certamente se perderão (Pv 11.14) remodelar essa pintura malfadada e infausta. Sem dúvida nenhuma, agindo assim, Deus será glorificado! Amém!

* Adotamos um nome fictício para preservar a estudante.


Pela educação pela Palavra,


Artur Freire Ribeiro

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...