6.9.10

Criança, a alma do negócio

O que estão fazendo com seu filho?


A fim de ajudarmos os pais, publicamos uma entrevista com Estela Renner, em que ela conta um pouco dos abusos publicitários direcionados às crianças. Em seguida, mostramos vídeos que alertam a todos acerca de como a mídia influencia seu filho a querer sempre "ter" mais, simplesmente por "ter"... Tomemos cuidado!



Estela Renner

Ela dirigiu o documentário "Criança, a alma do negócio", trazendo o debate sobre os excessos da publicidade dirigida às crianças

A entrevistadora mostra duas folhas de papel: em uma está escrito “brincar”, na outra “comprar”. Ao comando dela, as crianças devem colocar a mãe no papel que descreve a atividade preferida. Já adivinhou? Pois é. É triste constatar que o papel escolhido pela maioria diz “comprar”, que elas adorariam se mudar para o shopping e se divertem mesmo é vendo TV. A cena faz parte do documentário Criança, A Alma do Negócio, dirigido por Estela Renner, mãe de Marcos, 7, Lucas, 5 e Sienna, 2. Com formação em publicidade e artes cênicas e mestrado em cinema, ela trouxe para a TV e a Internet – o documentário pode ser visto no YouTube – o debate sobre os excessos da publicidade dirigida às crianças. Entre no debate.

1.   O consumismo infantil atinge todas as classes da mesma maneira? Às vezes, temos a impressão de que é mais agudo nas classes mais baixas, que se endivida para não frustrar os filhos. Como você percebe isso?

Os pais devem insistir diariamente, excessivamente, na construção dos valores de seus filhos. Os pais devem falar, educar, dar exemplo para seus filhos. Mostrar, de todas as formas, que o “ser” é mais importante do que o “ter”. Já que a publicidade diz o contrário e o tempo todo, o esforço do pai tem de ser redobrado, não tem jeito. Essa é uma batalha que não vê classe social. Um dia recebi uma carta de uma avó que assistiu ao filme. Dizia: “Estela, parabéns pelo seu trabalho. Posso dizer que pertenço a uma classe econômica privilegiada e te digo: tenho oito netas e faço um trabalho social em uma favela há 20 anos. O problema do consumismo infantil atinge as minhas netas tanto quanto atinge as crianças com as quais trabalho. É cruel, minhas netas buscando no “ter” a resposta para suas angústias, e as crianças da favela culpando o “não ter” pelas suas angústias. Alguém devia proteger essas crianças. Os pais estão perdendo a batalha.”

2.   Você vê um início de reação a esse excesso? Marcas que anunciam diretamente para crianças podem passar a ser malvistas pelos pais, por exemplo?

Muitas empresas já entenderam que a favor da criança não existe negociação. Perceberam que, quem não enterrar publicidade dirigida às crianças junto com a publicidade de cigarro, vai ficar para trás. Tenho sido convidada por empresas e agências de profissionais mais conscientes para mostrar o filme, dar palestras, participar de debates etc. As empresas que primeiro se posicionarem a favor da criança vão sair ganhando, é o tal do “do good but do well”.

3.   Começou-se a se falar em pré-adolescência. Você acredita que existe mesmo essa fase ou foi um jeito que a mídia achou para encurtar a infância e vender mais?

Li um anúncio que era algo assim: “McDonalds está feliz am anunciar que não faz mais comunicação mercadológica dirigida às crianças (de 0 a 6 anos)”. A minha pergunta foi: então, depois dos 6 anos, o que a criança é? Pelo visto, taí a resposta: pré-adolescente!

4.   Como são as festas de aniversário de seus filhos? Faria em buffet?

Acho um sacrifício ir a festa em buffet. Acho a luz desagradável, detesto aquelas frituras todas que são servidas, normalmente tem uma música alta insuportável. Levo meus filhos nas festas dos amigos que são em buffet, e vejo que eles se divertem muito, mas no aniversário deles faço em casa, que é divertido também. Consigo arrumar tempo para fazer esse tipo de atividade com eles. Há muitas mães que não têm esse tempo.

5.   O que você acha desse fenômeno?

O que me preocupa no “fenômeno buffet” é a expectativa que criamos em nossos filhos. Se é normal ir a uma festinha de um amigo que oferece um leque de atividades de quase um miniparque de diversões, a noção da diversão, para a criança, fica alterada. Hoje em dia, a brincadeira vem muito pronta, muito servida para a criança, a criança corre o sério risco de não saber como brincar sozinha sem a interferência de um eletrônico ou um adulto estimulando.

6.   Você se lembra de algum comercial que viu na infância? Qual? Quais as principais diferenças que vê entre a publicidade da nossa infância e a atual? É mesmo tão diferente assim?

A modernidade é inevitável. Não cheguei a fazer um estudo comparando a publicidade do meu tempo e a de agora. Mas passei mais de 50 horas assistindo à publicidade de hoje durante a programação infantil e também durante a adulta. O que posso afirmar é que a publicidade fala diretamente com a criança não só para vender produtos infantis, mas também para vender produtos para adulto. Celulares, cartão de crédito, carros, todos anunciados para a criança. A criança tem um poder de persuasão sobre os pais muito maior do que os comerciais, e o mercado sabe disso. Então, as crianças de hoje são usadas como mensageiros, como promotores de venda de um produto.

7.   Na sua opinião, por que as crianças brasileiras são as que mais veem TV no mundo?

Pelo que me foi dito por especialistas e por meio dos inúmeros depoimentos dos pais, acho que são vários os fatores: impossibilidade de brincar na rua por causa da violência, falta de verba para entreter as crianças de outra forma, falta de coragem dos pais de dizer “não” para os filhos ou colocar limites, pais que assistem à TV em demasia. Os filhos seguem o exemplo dos pais ou querem estar perto dos pais (mas essa é uma questão maior, daí temos de entender o porquê da alta penetração da TV no país…).

8.   Agora fazendo o papel de advogada do diabo: a falta de publicidade não inviabilizaria os canais que trazem programas infantis que são bacanas, têm proposta educativa?

Isso é papo. O mercado publicitário é infladíssimo. Para quem não sabe das cifras, um comercial de 30 segundos pode custar, para uma produtora, R$ 1 milhão, R$ 2 milhões para ser feito. Isso sem falar na verba gasta com a agência, para criar a peça publicitária, ou no espaço de mídia que deve ser comprado para a veiculação. Essa mesma verba podia ser usada para patrocinar 13 episódios ou mais de um programa infantil de qualidade de meia hora. Agora, se uma empresa tem essa verba toda para um comercial que dura apenas 30 segundos, imagine o quanto a empresa LUCRA com isso? Por isso, toda vez que se fala em bem-estar da criança, em proteção da infância, vem a reação: estão tirando minha liberdade de expressão! Isso que estão falando é um exagero!  A publicidade não influencia tanto assim! Não vamos confundir: o objetivo da publicidade é vender, tirar os produtos da prateleira. Quem vem com esse papo de bem-estar da criança é quem, na verdade, se importa com ela. Se a prioridade é regular a publicidade dirigida às crianças, com certeza o mercado se ajusta. Existem muitos exemplos de países, com história democrática consolidada, em que há diferentes formas de restrição de publicidade dirigida às crianças – e nem por isso elas deixam de ter programação de qualidade. É só fazer uma pesquisa, adotar um sistema semelhante (há casos em que o programa do adulto paga pelo programa infantil, por exemplo).

9.   Seus filhos veem muita TV ou você regula? De que maneira?

Gostaria de usar a TV como mais uma ferramenta de entretenimento e de educação para meus filhos, mas não dá. Acho muito trabalhoso ter de “desdizer” tudo que a publicidade fala para eles. “Não, você não vai virar o herói de sua turma e não, não é importante ser o herói de sua turma… olha, eles não querem que você fique feliz, eles querem vender mais, ganhar mais dinheiro, não acredite em nada do que eles falam.” É muito chato ter de falar tudo isso para os meus filhos. É como tirar deles um pouco do sonho. Quem quer dizer para o filho que Papai Noel não existe? Ter de explicar a verdadeira mensagem da publicidade para o filho é mais ou menos isso.

10.            No Brasil, por causa da divisão entre escola pública e privada, as crianças não convivem com a diversidade. Isso é diferente com seus filhos nos EUA?

Meus filhos frequentam escola pública, são minoria branca e nunca descreveram seus amigos pela cor da pele. Claro que, no Brasil, isso deveria ser uma realidade. Todas as crianças de todas as classes sociais perdem com o fato de não conviver em um mesmo espaço. A falta de verba e esforços para uma educação pública de qualidade no Brasil faz com que todos saiam perdendo.

11.            Como foi a sua infância?

Minha infância teve altos e baixos. Mas foi longa. Foram várias cenas marcantes. Se hoje podemos viver até mais de 100 anos e passamos a nossa vida adulta nos remetendo a esse período da infância, por que deixar ela mais curta? Não tem sentido. Vale citar a grande artista plástica francesa Louise Bourgeois: "Todos os meus trabalhos dos últimos 50 anos têm origem na infância, ela nunca perdeu sua mágica, seu mistério, seu drama”.

RENNER, Estela. Entrevista concedida a Larissa Purvinni. Disponível em < http://www.revistapaisefilhos.com.br/entrevista/134/estela-renner> Sem data de publicação. Data de acesso: 6 set. 2010.


Veja abaixo os vídeos do documentário Criança, a alma do negócio

Trailler



Parte 1


Parte 2


Parte 3


Parte 4


Parte 5


Créditos


Pare. Pense! – Instututo Alana


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