30.11.10

A MEDITAÇÃO NA VIDA CRISTÃ - Complemento 2 para as Lições Bíblicas CPAD 4/2010

IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS - MINISTÉRIO DO BELÉM

ESTUDO DA PALAVRA DE DEUS PARA OS AMIGOS E PROFESSORES DA ESCOLA DOMINICAL (EPAPED)
BELÉM- SEDE
QUARTO TRIMESTRE DE 2010

TEMA –  O poder e o ministério da oração- o relacionamento do cristão com Deus



COMENTARISTA :  Eliezer de Lira e Silva



APÊNDICE Nº 2 -  A MEDITAÇÃO NA VIDA CRISTÃ

Texto áureo

“Antes tem o seu prazer na lei do Senhor e na Sua lei medita de dia e de noite.” (Sl.1:2)


INTRODUÇÃO

- Em complemento ao estudo deste trimestre letivo sobre a oração, analisaremos, ainda que superficialmente, a questão da meditação na vida cristã, assunto que, apesar de pouco abordado, tem se inserido em muitos segmentos dos que cristãos se dizem ser.

- A questão da meditação deve ser bem analisada, visto que, por meio dela, a Nova Era tem conseguido se imiscuir na vida espiritual de muitos.

I – A MEDITAÇÃO NA BÍBLIA SAGRADA

- Neste trimestre letivo, estamos a estudar sobre a oração, esta “elevação da alma a Deus”. Como complemento a este importante estudo, resolvemos tratar de dois assuntos que sempre estão relacionados à oração: o jejum, que já foi objeto do apêndice 1, e a meditação.

- Na verdade, a meditação, entre os cristãos, máxime entre os evangélicos, não é assunto muito abordado, já que a se trata de prática que encontrou guarida seja entre os cristãos do Oriente, seja entre os católicos romanos, sendo, mesmo, a base dos chamados “místicos”, em sua grande maioria, pessoas que se dedicaram à vida monástica, ou seja, à vida em mosteiros e conventos, prática que foi descartada pelos que seguiram a Reforma Protestante.

- No entanto, a partir do século XIX, com uma nova busca da espiritualidade, após o desencanto com o racionalismo iniciado a partir do século XV no Ocidente, busca esta, inclusive, que deu origem ao movimento pentecostal entre os evangélicos, a meditação, como prática devocional, voltou a encontrar guarida na vida cristã, como também a ser difundida pela Nova Era, com o resgate das crenças orientais, notadamente o hinduísmo e suas variações e o budismo.

- O resultado disto é que a questão da meditação voltou à tona, e como a Bíblia Sagrada fala dela, torna-se necessário verificar qual é o seu lugar na vida espiritual do cristão e um estudo sobre a doutrina bíblica da oração se apresenta como ocasião propícia para falarmos deste assunto, até porque o silêncio a respeito do tema entre os estudiosos da Palavra tem reforçado a influência deletéria que o movimento Nova Era, arauto do Anticristo, tem promovido entre muitos que cristãos se dizem ser.

- “Meditar” é, precisamente, dizem-nos os lexicógrafos (aqueles que escrevem dicionários), o ato de “refletir, pensar longamente, ocupar-se, estudar, praticar e fazer”.  A palavra hebraica empregada para “meditar” é “hagah” (הגה), cujo significado é “refletir, gemer, resmungar, ponderar, planejar, maquinar”. “…Hagah representa algo tranquilo, diferente do sentido de ‘meditação’ enquanto exercício mental. No pensamento hebraico, meditar nas Escrituras é repeti-las calmamente em som suave e baixo, abandonando interiormente as distrações exteriores.…” (BÍBLIA DE ESTUDO PLENITUDE. Palavra-chave: medita. Sl.1:2, p.537).

- A palavra “meditar” é, em princípio, utilizada, pelas Escrituras, para indicar a leitura devocional da Bíblia, como se vê, por exemplo, em Js.1:8, onde o próprio Senhor, ao orientar Josué, após a morte de Moisés, manda que o novo líder de Israel meditasse no livro da lei de dia e de noite. Ora, o livro da lei, àquela altura, era tudo quanto havia das Escrituras Sagradas e, ao determinar que Josué, para que tivesse êxito em sua missão, não apartasse da sua boca a lei e nela meditasse de dia e de noite, o Senhor estava determinando que Josué não cessasse de refletir, pensar longamente, ocupar-se daquilo que estava escrito no livro.

- A repetição do texto sagrado, a voz pequena, como um verdadeiro resmungo, com nítido objetivo de reflexão, de ponderação, com a finalidade de fazer com que a mente analise e aplique os preceitos constantes da Bíblia Sagrada no cotidiano de cada um é o sentido de “meditar” na maior parte das vezes em que as Escrituras falam em meditação, como podemos observar no Salmo 119, onde a palavra aparece diversas vezes (Sl.119:15,23,48,78,97,99,148), sempre relacionada com a leitura devocional da Palavra de Deus.

- Esta meditação, conforme determinada por Deus a Josué, era uma meditação contínua. A expressão bíblica é “de dia e de noite”, ou seja, a qualquer hora do dia, a qualquer momento, em outras palavras, sempre. Assim como há um mandamento bíblico para orarmos ininterruptamente, também existe uma determinação do Senhor para que jamais deixemos de pensar e de refletir sobre as Escrituras Sagradas. O salmista diz que meditava todo o dia (Sl.119:97). Mas por que deveria Josué meditar de dia e de noite no livro da lei? O próprio Deus responde: “para que tenhas cuidado de fazer conforme a tudo quanto nele está escrito, porque então farás prosperar o teu caminho e então prudentemente te conduzirás” (Js.1:8). Estas palavras, a propósito, são repetidas pelo salmista (Sl.1).

- A leitura devocional da Bíblia, por ser feita com apego, isto é, com meditação, com envolvimento mental e longa reflexão a respeito do que é lido, produz em cada leitor o cuidado necessário para que pratiquemos as ações corretas, para que ajamos segundo a vontade de Deus, que está expressa no texto sagrado, a fim de que tenhamos uma vida espiritual bem sucedida e que adquiramos a prudência, que é nada mais, nada menos que a ciência do Santo (Pv.9:10). Para que sejamos vitoriosos nas lutas diárias que temos na vida com Cristo nesta Terra, para que saibamos o que o Senhor Jesus, que é o Santo, quer de cada um de nós, é indispensável, são palavras do próprio Deus, que estejamos a meditar de dia e de noite na Palavra do Senhor.

- Mas, além da palavra “hagah”, também é traduzido por “meditar” na Versão Almeida Revista e Corrigida, a palavra hebraica “shiyach”(שיח), cujo significado é “conversar consigo mesmo”, “refletir”, “ponderar”. Este termo é encontrado, v.g., no Sl.77:6, quando o salmista Asafe, num instante de angústia e aflição, ficou a arrazoar no seu coração o seu estado presente e o que Deus já havia feito em prol do Seu povo, pensando se Deus haveria de rejeitá-lo para sempre ou se tornaria a ser-lhe favorável. Mas, à luz da lembrança dos feitos do Senhor, o salmista viu que estava enfermo espiritualmente e afastou de si aquela sensação de incredulidade, de dúvida quanto à fidelidade do Senhor.

- Notamos, pois, que, neste sentido, a “meditação” envolve não a lembrança literal do texto sagrado, mas é uma reflexão da mente a respeito das obras do Senhor, do caráter do Senhor, lembrança baseada, sem dúvida, na revelação divina nas Escrituras, mas que prescinde da leitura do texto bíblico ou de sua recitação a voz pequena. Foi o que fez o salmista no Salmo 104, quando, depois de observar a natureza e todas as obras do Senhor que a formam, diz que tudo quanto observou e analisou tinha sido “sua meditação a respeito do Senhor” (Sl.104:34).

- Este significado de meditação, quase sempre presente na ideia de “meditação no coração”, também é apresentado pela palavra “hagah”, em textos como Sl.5:1, 63:6; 77:13; 19:14; 39:3 ; 49:13 e 143:5; Pv.15:28 e 24:2.

- Notamos, portanto, que a meditação, no Antigo Testamento, não se apresenta apenas como uma reflexão mediante a recitação nas Escrituras, mas é também uma atividade de reflexão “no coração”, ou seja, uma reflexão baseada nas obras do Senhor, reflexão esta que, conquanto baseada na revelação escriturística, não depende do texto bíblico para se realizar.
OBS: “…Acerca do homem bem-aventurado do Salmo 1, é dito: ‘Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na Sua lei medita de dia e de noite’ (A. G. Clarke diz: ‘A lei do Senhor aqui é praticamente sinônimo da Palavra do Senhor, toda a revelação divina’). Em primeiro lugar, ele se deleita na lei do Senhor, então ele medita nela. Meditação bíblica envolve o uso da mente no estudo da Palavra de Deus, ‘mastigando-a’ , assimilando- a, e então agindo com base no que tem sido aprendido.(…) Você meditará em Deus como você medita na Palavra. No Salmo 119, o salmista falou da Palavra em tudo, exceto em dois versos; ele se referiu à meditação sete vezes e se referiu a Deus em cada verso. Enquanto o salmista se deleitava na Palavra e meditava nela, pensamentos de Deus enchiam sua mente; assim será conosco.…” (NORRIS, John. A importância da meditação na vida do crente. Truth and tidigns, maio 1995, Trad. e adapt. por Claudinei Benedito Benedito. Disponível em: http://www.exame.diario.nom.br/a-import.pdf Acesso em 21 out. 2010).

- Daí porque ter sido traduzida por “medita”, a palavra “shama’” (שמע), que significa “ouvir”, mas que, “in casu”, na fala de Elifaz, é um convite para que Jó refletisse sobre tudo quanto seu amigo lhe havia dito a respeito de Deus para, então, tomar uma atitude que o pudesse livrar daquela aflitiva situação em que se encontrava.

- A meditação apresenta-se, pois, como uma concentração mental, mas não um mero exercício da razão, mas uma espécie de “balanço” no qual se volta para o interior e se verifica a sua situação diante de Deus e diante da situação em que se está. A “meditação” é uma atitude de interiorização, em que o salvo deverá refletir a respeito da revelação divina, buscará, num instante de silêncio e de falta de atividade, “escutar a voz do Senhor”, revelação esta que não se dá apenas nas Escrituras, mas também na natureza (Sl.19:1-3; Rm.1:20).

- Em o Novo Testamento, na Versão Almeida Revista e Corrigida, a palavra “meditar” aparece uma única vez, em I Tm.4:15, a palavra grega “meletao” (μελετάω), palavra cujo significado é “ponderar”, “imaginar”, “premeditar”, palavra que era utilizada tanto para se referir aos pensamentos dos filósofos antes de lançar seus argumentos, como para os retóricos, ou seja, aqueles que vivam de argumentar por meio de discursos.

- No texto de I Tm.4:15, Paulo exorta seu filho na fé Timóteo a que “meditasse nestas coisas e se ocupasse nelas”. Que coisas? O exercício da piedade, a palavra, o trato, a caridade (i.e., o amor), o espírito, a fé, a pureza e a persistência em ler, exortar e ensinar (I Tm.4:12,13). Completando o pensamento, Paulo mostra que a meditação envolve o cuidado de si mesmo e da doutrina, a fim de que não só se alcance a própria salvação quanto a salvação dos que nos ouvem (I Tm.4:15,16).

- Notamos, pois, que o apóstolo Paulo manda que Timóteo, a fim de que bem cumprisse o seu ministério, fosse cauteloso (e isto é mais um dos sentidos de “meletao”), buscando, a exemplo dos grandes oradores de seu tempo (e Timóteo era filho de grego e bem sabia do que Paulo estava a falar), fosse bem cuidadoso em suas palavras e em suas ações, sempre parando para refletir e bem ponderar como era sua conduta à luz da Palavra de Deus, da revelação do Evangelho.

- Vemos, pois, que a meditação não se restringe a tão somente recitarmos, decorarmos ou ficarmos a pensar e refletir passagens bíblicas, mas também é uma atitude de interiorização, de reflexão, de autoexame que temos de fazer, desprendendo-nos de tudo quanto possa nos distrair para que, em silêncio, em reverência ao Senhor, escutamos, no fundo de nosso homem interior, a voz do Senhor, para que, deste modo, venhamos a avançar espiritualmente.

- Afigura-nos, pois, exagerada a postura daqueles que, diante dos grandes equívocos que o assunto da meditação tem causado no meio cristão, buscam erradicar a meditação da vida cristã. Segundo este pensamento, “…Meditação Cristã verdadeira é um processo ativo de pensamento (pensando, resolvendo), pelo qual nos entregamos ao estudo da Palavra de Deus em oração e pedimos a Deus para nos dar entendimento através do Espírito. Ele habita no coração de todo crente e tem prometido nos guiar em ‘toda a verdade’ (João 16:13). Devemos então colocar o que aprendemos em prática, fazendo um compromisso com as Escrituras de que só elas serão a regra completa para as nossas vidas e para a prática das nossas atividades diárias. Isso causa crescimento espiritual e maturidade nas coisas de Deus à medida que somos ensinados pelo Espírito Santo.” (GOTQUESTIONS? ORG. O que é meditação cristã? Disponível em: http://www.gotquestions.org/portugues/meditacao-Crista.html Acesso em 21 out. 2010).

- A meditação não se resume apenas ao estudo da Palavra de Deus e a oração para que o Espírito Santo nos esclareça o texto sagrado, embora também a envolva. A meditação vai além, na medida em que se trata de uma atitude de interiorização, de um silêncio de nosso homem interior, à luz da Palavra, para que possamos ouvir a voz do Senhor e, com isto, melhorarmos nossos caminhos.

- Tanto é assim que, ao disciplinar a ceia do Senhor, o apóstolo Paulo foi claro ao dizer que, antes de participarmos do corpo e do sangue de Cristo, devemos fazer um exame introspectivo, a fim de avaliarmos se estamos, ou não, em comunhão com o Senhor e com a Sua Igreja (I Co.11:28). Este autoxame comporta uma meditação, uma ponderação, embora não seja só isto, já que o termo grego correspondente “dokimazo” (δοκιμάξω) envolve também a experiência e o julgamento.

- A meditação cristã encontrou guarida nos movimentos monásticos que se iniciam no século II. O monge cartuxo Guigo II (?-1193) estabeleceu quatro estágios para a meditação, a saber:
a) a “lectio divina”, que é a leitura orante das Escrituras, a leitura devocional da Bíblia, início de toda meditação.
b) a “meditatio”, que é a reflexão, a ponderação, a análise do texto sagrado, em que se pede ao Espírito Santo a compreensão do significado e a aplicação do texto sagrado a nossas vidas.
c) a “oratio”, que é uma oração em que externamos nossos sentimentos diante da compreensão das Escrituras, pedindo ao Senhor que nos dê graças para agirmos conforme a Sua vontade, conforme o que foi ensinado na Palavra.
d) a “contemplatio”, que é a nossa entrega nas mãos do Senhor, amando-O de todo o nosso coração, nossa alma, nossa fé e nosso entendimento (Lc.10:27), instante em que, se o Senhor quiser, poderá fazer com que desfrutemos e experimentemos da Divindade de forma sobrenatural (a chamada “contemplação em sentido estrito”), o grau máximo da meditação.

- A meditação cristã terá grande desenvolvimento entre os cristãos orientais, que se congregarão, após o Cisma do Oriente, na Igreja Ortodoxa. Lá, desenvolve-se toda uma prática meditativa que tem suporte num livro chamado “Filocalia” (em grego, “amor à beleza”), onde há a reunião de uma série de ensinos a respeito da meditação, baseada na chamada “oração de Jesus” ou “oração do coração”, uma frase repetida incessantemente durante a meditação: “Senhor Jesus, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador”.

- Entre os judeus, a meditação iniciou sua guarida a partir da reflexão e compreensão da chamada passagem da “Merkavah” (carruagem), as visões da glória de Deus descritas pelo profeta Ezequiel, a que teriam se dedicado os grandes nomes que compilaram a “lei oral” nos ´seculos I e II, logo após a destruição do templo pelos romanos.

- Este estudo acabou criando a meditação mística, denominada de “hitbonenut”, esta, sim, que procurava a “contemplação das questões divinas”, que se distanciavam do texto bíblico. A “Cabala”, o misticismo judaico, desenvolverá, a partir do século XVIII, toda uma “doutrina da meditação”, em que se busca meditar sobre os Nomes Sagrados de Deus, sobre o alfabeto hebraico e que tem tido grande influência no mundo judaico da atualidade, sendo, também, um elemento explorado pela Nova Era.

- Entre os muçulmanos, não é diferente. O Alcorão, certamente seguindo os passos de judeus e cristãos, põe a meditação com base no livro sagrado. “…’Eis o Livro que te revelamos, para que os sensatos recordem seus versículos e neles meditem.’(38ª Surata, versículo 29) Disse mais: ‘Não meditam, acaso, no Alcorão? Se fosse de outra origem que não de Deus, haveria nele muitas discrepâncias.’(4ª Surata, versículo 82) E disse ainda: ‘Não meditam, acaso, no Alcorão, ou é que seus corações são insensíveis?’(47ª Surata, versículo 24.). Sua explicação nada mais é do que o resultado de meditação e de deliberação…” (HAYEK, Samir El. Introdução ao Alcorão Sagrado. Disponível em: http://www.islam.com.br/quoran/introducao.htm Acesso em 22 out. 2010). Entre os islâmicos, uma corrente, chamada de “sufi” ou “sufista” foi a que mais se dedicou à meditação como forma de expressão da espiritualidade, prática que é chamada de “dhikr”, reportando-se à própria vida ascética de Maomé que teria recebido a revelação do Alcorão num de seus períodos de jejum e de meditação.

- Vemos, pois, claramente que, conquanto seja atitude recomendada pela Palavra de Deus e que se apresenta como importante elemento da vida espiritual, cedo a meditação foi, como tudo que diz respeito a Deus, misturada com conceitos antibíblicos, com o fim de desviar a espiritualidade do gênero humano, desvios estes que encontraram guarida dentro da Igreja e que pululam e dominam esta prática nas falsas religiões.


II – A PRÁTICA DA MEDITAÇÃO E EQUÍVOCOS QUE SE DEVEM EVITAR

- Nos dias atribulados em que vivemos, onde já é difícil orar, que dirá meditar. A meditação envolve um total desprendimento de nossos pensamentos, sentimentos e vontade, um “esvaziamento completo”, para que venhamos a ouvir a voz do Senhor. Na meditação, este “esvaziamento” se deve dar mediante a concentração da mente nas obras do Senhor, na exaltação do Seu nome, a exemplo do que fez o salmista no Salmo 104, que é um modelo de como se meditar.
OBS: “…A atitude contemplativa é oposta àquela que adotamos diante dos meios, pelos quais só nos interessamos na medida em que servem para alcançar nossos objetivos. Pela contemplação, nos aplicamos a um objeto como tal, penetramos em sua essência. O objeto tem um valor intrínseco, e atrai nosso coração com seu conteúdo. Não vivemos aquela tensão para o futuro, à qual nos referíamos, típica da ação, mas nos demoramos no presente. Somos receptivos ao objeto e nos aplicamos a ele plenamente sem divisão; repousamos no objeto.…” (BELLO, Joathas. O lugar da contemplação na vida cristã. 14. out. 2006. Disponível em: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:HbsK1UYg6h8J:www.veritatis.com.br/article/3935+medita%C3%A7%C3%A3o+crist%C3%A3&cd=96&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br Acesso em 21 out. 2010)

- Quem ora corretamente, não terá dificuldade em meditar. A meditação seguir-se-á à oração, visto que este silêncio exigido para a meditação nada mais é que um preâmbulo para que Deus venha conosco dialogar. A meditação não ser praticada desprendida da oração e é mais um reforço à oração que uma atividade que se deva praticar separadamente.
OBS: Para o Catecismo da Igreja Romana, aliás, a meditação nada mais é que uma das expressões da oração. A oração comportaria três expressões: a oração vocal, que é a oração propriamente dita; a meditação e a oração mental (que é a contemplação, o estágio final da meditação). “… 2721. A tradição cristã compreende três expressões maiores da vida de oração: a oração vocal, a meditação e a oração mental. Estas têm em comum o recolhimento do coração. 2722 A oração vocal, fundada na união do corpo e do espírito na natureza humana, associa o corpo à oração interior do coração, a exemplo de Cristo, que reza a seu Pai e ensina o "Pai-Nosso" a seus discípulos. 2723 A meditação é uma busca orante que põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção, o desejo. Tem por finalidade a apropriação crente do assunto meditado, confrontado com a realidade de nossa vida. 2724 A oração mental é a expressão simples do mistério da oração. E um olhar de fé fito em Jesus, uma escuta da Palavra de Deus, um silencioso amor. Realiza a união à oração de Cristo na medida em que nos faz participar de seu Mistério.”

- Já temos dito, no estudo sobre a oração, que os que cristãos se dizem ser têm, lamentavelmente, distorcido o conceito de oração, deixando de fazê-la um diálogo com Deus, para ser tão somente um monólogo a Deus. A meditação tem, entre suas principais, senão a principal tarefa, fazer-nos aprender a ouvir a voz do Senhor, fazendo com que nossa oração se torne um diálogo verdadeiro.

- Esta circunstância é importante, porque a correta meditação depende de uma correta oração. A influência que a prática da meditação entre os cristãos tem recebido de falsas religiões na atualidade, religiões estas que têm sido propagandeadas e disseminadas pela Nova Era (movimento que congrega diversos segmentos que têm defendido a mistura de todas as religiões com raízes de ensinamento de religiões orientais, em especial o hinduísmo, o budismo e o taoísmo e que se apresenta como o verdadeiro movimento espiritual preparatório do Anticristo), resulta de erros no entendimento do que seja a oração, erros estes que, como tudo que é trazido pelo mundo, não é novo.

- O primeiro equívoco a respeito do conceito de oração é o que se denomina de “pseudo-gnose”, entendimento de que a meditação é uma forma de aumento do conhecimento, uma demonstração da evolução espiritual porque se trata de um “desprendimento da matéria”. A prática da meditação no hinduísmo, como no ioga, parte desta pressuposição, qual seja, a de que a meditação nos faz libertar do corpo e, por isso, nos aproximamos de Deus. Este pensamento cedo tumultuou a Igreja, pois já os apóstolos atacam o “gnosticismo”, que é precisamente este pensamento, como se vê no escrito de Paulo aos colossenses ou nas epístolas de João.

- Tal pensamento é completamente equivocado, pois o corpo não é um mal em si, pois é obra de Deus e, como tal, algo que não só é bom, mas muito bom (Gn.1:31). Ademais, o corpo do salvo é templo do Espírito Santo e pertence a Deus (I Co.6:19,20).

- Como se não bastasse isso, não se pode pensar que este “desprendimento da matéria” possa nos levar a um “conhecimento superior”. “…a meditação oriental (esotérica) tem dois passos: o primeiro é esvaziar a mente da pessoa, e o segundo é direcionar essa mente vazia e desprotegida para uma busca de um suposto ‘Eu Superior’ introvertido. Trata-se da busca de uma suposta deidade interior. É o ser humano supostamente sentindo-se ‘um com deus’.…” (COSTA, Samuel. Seduzidos pela meditação. Disponível em: http://www.chamada.com.br/mensagens/meditacao.html Acesso em 21 out. 2010).

- Um dos princípios da Nova Era é, precisamente, o fazer crer que cada ser humano é um “deus”. É a divinização do homem, a mais antiga das mentiras de Satanás, já anunciada ao primeiro casal no Éden (Gn.3:4,5). A meditação, feita nestes termos, portanto, é um dos instrumentos para esta suposta divinização.

- Outro equívoco do conceito de oração que faz com que se tenha um conceito errôneo da meditação é o que se denomina de “messalianismo”,  doutrina surgida entre alguns monges orientais por volta do século IV segundo a qual a graça do Espírito Santo se confundia com a experiência psicológica da Sua presença na alma, ou seja, somente a oração incessante poderia exorcizar o demônio que se mantinha na vida daquele que se convertia a Cristo.

- A oração é um meio de santificação e a santificação deve ser seguida até o fim para que se complete o processo da salvação, mas não afugentamos o inimigo tão somente enquanto estamos orando. Considerar a oração como um meio de salvação é um erro e a meditação como uma forma de libertação do mal, que é a consequência deste pensamento, também um equívoco, que não deve ser adotado.

- Considerar que a oração ou a meditação é um meio de salvação é diminuir o poder da salvação pela fé em Cristo Jesus e entender que as obras humanas podem salvar, o que é um absurdo do ponto-de-vista bíblico. Tem-se aqui, uma vez mais, a influência dos pensamentos orientais a respeito da meditação, que é uma das formas pelas quais entendem eles, o homem obtém o seu desenvolvimento espiritual, ou seja, a sua salvação.
OBS: Por sua biblicidade, reproduzimos aqui trecho de documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé da Igreja Romana, a antiga Inquisição, quando discorreu sobre o tema da meditação, no tempo em que era dirigida pelo cardeal Joseph Ratzinger, que veio a ser o Papa Bento XVI: “…Ambas estas formas de erros [pseudo-gnose e messalianismo, observação nossa] continuam a constituir uma tentação para o homem pecador. Instigam-no, de facto, a procurar ultrapassar a distância que separa a criatura do Criador, como coisa que não deveria existir; levam-no a considerar o caminho de Cristo na terra, mediante o qual Ele quer conduzir-nos ao Pai, como realidade « superada »; induzem também a rebaixar o que é concedido como pura graça, ao nível de psicologia natural, como « conhecimento superior » ou como « experiência ». Reaparecidas de vez em quando na história à margem da oração da Igreja, tais formas erróneas parecem impressionar hoje novamente muitos cristãos, apresentando-se-lhes como remédio quer psicológico quer espiritual, e como processo rápido para encontrar a Deus.…” (Carta aos bispos da Igreja Católica acerca de alguns aspectos da meditação cristã, n.10. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19891015_meditazione-cristiana_po.html Acesso em 21 out. 2010)

- A meditação nada mais é que um momento de silêncio em que, refletindo sobre a Palavra de Deus ou outros meios de revelação divina, esperamos “escutar a voz do Senhor”. Assim, bem ao contrário de nos anularmos e cairmos no “nada”, como dizem os budistas, ou chegarmos ao “Eu-divino”, como afirmam os hinduístas, temos a certeza de que encontraremos o Senhor de todas as coisas, o nosso Pai, cujas obras contemplamos em nossas mentes, em nosso homem interior no momento da meditação.
OBS: “…« Deus é amor » (1 Jo. 4, 8): esta afirmação profundamente cristã pode conciliar a união perfeita com a alteridade entre o amante e o amado, em eterna « quase-troca » e eterno diálogo. Deus mesmo constitui este eterno diálogo, e nós podemos, com plena verdade, tornar-nos participantes de Cristo, como « filhos adoptivos », e gritar com o Filho no Espírito Santo: « Abbá, Pai ». Neste sentido, os Padres têm totalmente razão quando falam da divinização do homem, o qual, incorporado em Cristo, Filho de Deus por natureza, se torna participante, pela sua graça, da natureza divina, « filho no Filho ». O cristão, recebendo o Espírito Santo, glorifica o Pai e participa realmente da Vida Trinitária de Deus.…” (Carta aos bispos da Igreja Católica acerca de alguns aspectos da meditação cristã, n.15. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19891015_meditazione-cristiana_po.html Acesso em 21 out. 2010) (destaques originais)

- Por isso mesmo, ao meditarmos e centrarmos nossa atenção em Deus e em Suas obras, não temos como deixar de refletir sobre o amor de Deus, pois Deus é amor (I Jo.4:8). Neste sentido é dito que o amor de Deus é o único objeto da contemplação cristã. À medida que meditamos, não teremos senão que reconhecer que sempre seremos inferiores ao amor de Deus, amor este que se evidencia na própria vinda de Deus para nos falar em nosso silêncio, “…pela misericórdia de Deus Pai, mediante o Espírito Santo enviado aos nossos corações, nos é dado em Cristo, gratuitamente, um reflexo sensível deste amor divino, e nos sentimos como atraídos pela verdade e pela beleza do Senhor.…” (SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. op.cit., n.31).

- “…A meditação esotérica, motivada por Satanás, é passiva. A meditação cristã é ativa.
Na meditação bíblica, o indivíduo deve não apenas ler a Bíblia, mas principalmente decorá-la e aplicá-la à sua vida, além de falar com Deus através da oração e do louvor. O reverendo Bob Larson, em seu livro Larson’s New Book of Cults, afirma: ‘A raiz da palavra meditação implica um processo ruminativo de uma digestão vagarosa das verdades de Deus. Isso envolve um pensamento concentrativo, dirigido, que medita nas leis, obras, preceitos, palavra e pessoa de Deus. ‘Medite n’Ele’, é a mensagem da Escritura. [...] A meditação mística cultua o próprio ser como uma manifestação interior de Deus. A meditação bíblica estende-se ao exterior para um Deus transcendental que nos levanta acima da nossa natureza interna pecaminosa para comungar com Ele através do sangue do Seu Filho’.[ Larson’s New Book of Cults. Tyndale House Publishers Inc., Wheaton, Illinois, USA, 1994, páginas 55-56] …”(COSTA, Samuel. end. cit.).

- Por isso, não se podem adotar, como muitos têm feito, conceitos advindos do budismo ou do hinduísmo para a prática de uma suposta “meditação cristã”. Técnicas como a da “comunidade mundial da meditação cristã”, criada pelo monge beneditino John Main (1926-1982), onde, dizendo ter base nos chamados “padres do deserto” (os primeiros monges cristãos), desenvolveu toda uma técnica com base no “mantra”, que é uma concentração mental em torno de uma palavra para completo esvaziamento da mente, exatamente o que fazem os budistas e hinduístas, praticamente a mesma técnica conhecida como “oração centrante”, esta desenvolvida pelo monge trapista Thomas Keating (1923- ), devem ser repudiadas, pois não é este o pressuposto de uma meditação cristã.
OBS: “…Como podem ver, a Oração Centrante e a Meditação Cristã sao ‘meio-irmãs’. A diferença básica é que na Oração Centrante o ‘Mantra’ chama-se ‘Palavra Sagrada’ ou ‘Palavra de Amor’ e NÃO é repetida incessantemente, como na Meditação Cristã. Repetimos a Palavra Sagrada quando nos percebemos com nossa atenção em alguma coisa, que não seja a Presença de Deus. Então voltamos a ela para reafirmar nossa INTENÇÃO de permanecer diante do Senhor. Ela também representa nosso CONSENTIMENTO à SUA ação em nós. Enquanto a Oração Centrante é receptiva, a Meditação Cristã é uma forma ativa de meditar.…” (Oração centrante e lectio divina. Disponível em: http://www.oracaocentrante.org/meditcrista.htm Acesso em 21 out. 2010). Percebe-se, pelas próprias palavras de seus praticantes, como há nítida influência hinduísta-budista nestas práticas meditativas.

- Também merece referência aqui os escritos de Richard Foster, um ministro quaker, que tem encontrado grande aceitação no meio evangélico, cujos métodos de meditação estão presentes na obra “Celebração da disciplina”, que acolhe os discutíveis ensinos da completa passividade na meditação (SCHULTZE, Mary. O perigo da meditação e da oração comtemplativa. 28 dez. 2006. Disponível em: http://www.cpr.org.br/O-Perigo-da-meditacao.htm Acesso em 21 out. 2010)

- Este “esvaziamento da mente” defendido pelos cultores deste tipo de meditação leva, inevitavelmente, a um controle da pessoa por forças espirituais ocultas, que não são o Espírito Santo. Como afirma Samuel Costa, …o objetivo final da meditação esotérica é o controle total das mentes dos praticantes por forças ocultas anticristãs. Do outro lado, o alvo da meditação cristã é o cultivo constante de um relacionamento de amor e dependência do homem limitado com o seu único Deus – Maravilhoso, Criador, Onipresente, Onipotente, Onisciente e Ilimitado.…” (end.cit.).
OBS: “…Meditação, para o hinduísta, não é o mesmo que para nós, cristãos; não significa reflexão, aprofundamento de um tema que leve à oração. Meditação, para o hinduísta, é o  esvaziamento da mente; é fazer da mente uma folha branca ou uma tábua rasa. Assim pensa o yógui se libertar do reboliço do mundo sensível e entrar em repouso, identificando-se mais e mais com a divindade.…” (BETTENCOURT, Estêvão. : Yoga, o que é? Pergunte e responderemos, .459, ano 2000, p.459. Disponível em: http://www.cleofas.com.br/ver_conteudo.aspx?m=doc&cat=119&scat=182&id=454 Acesso em 21 out. 2010).


- Este relacionamento amoroso com o Senhor, pois a consequência da meditação cristã é a abertura de um diálogo com Deus, que é amor, jamais passará pela nossa inconsciência, pela nossa anulação. Deus não age desta maneira, mas respeita a dignidade do homem que criou.

- Não resta dúvida de que Deus está acima do homem e que um contato com o Senhor nunca poderá passar pelo entendimento humano, ultrapassa-o. O apóstolo Paulo, mesmo, disse que, num contato extraordinário tido com o Senhor, em sua experiência do arrebatamento ao terceiro céu, teve experiências que são inefáveis, ou seja, não há como exprimi-las na pobre linguagem humana (II Co.12:4).

- Os chamados “padres do deserto”, como João Cassiano (370-485) e o autor da obra “A nuvem do não saber” (anônimo, provavelmente no século XIV) apenas reforçaram o caráter sobrenatural do contato entre Deus e o homem, que vai além do nosso entendimento, algo, aliás, que o apóstolo Paulo registra num instante de grande espiritualidade ao término do capítulo 11 da epístola aos romanos. Isto não autoriza, em absoluto, defendermos que a meditação é prática que deve nos fazer inconscientes ou de “mente vazia”. Fujamos destes ensinos, que nada tem de bíblicos e nada mais são que aplicação dos falsos ensinamentos da Nova Era a uma prática das mais sublimes e profundas da espiritualidade cristã.

- “…O vazio de que Deus precisa é o da renúncia ao próprio egoísmo, não necessariamente o da renúncia às coisas criadas que Ele nos deu e no meio das quais nos colocou. Não há dúvida que na oração nos devemos concentrar inteiramente em Deus e afastar o mais possível aquelas coisas deste mundo que nos prendem ao nosso egoísmo.…” (SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. op.cit., n.19). A contemplação de Deus exige de cada um de nós a prévia limpeza de coração (Mt.5:8), o que, aliás, também é uma exigência feita ao orante (Jo.9:31). Por isso, em vez de nos desprendermos, devemos, na meditação, começar refletindo sobre nossos pecados e pedindo perdão por eles a Deus. É o chamado primeiro estágio da meditação, a “purificação”.
OBS: Tomás de Kempis (1379 ou 1380-1471), em sua obra A imitação de Cristo, que teve grande influência entre os líderes da Reforma Protestante, afirmava o seguinte: “…Por que muitos santos foram tão perfeitos e contemplativos? É que eles procuraram mortificar-se inteiramente em todos os desejos terrenos, e assim puderam, no íntimo de seu coração, unir-se a Deus e atender livremente a si mesmos. Nós, porém, nos ocupamos demasiadamente das próprias paixões e cuidados com excesso das coisas transitórias. Raro é vencermos sequer um vício perfeitamente; não nos inflamamos no desejo de progredir cada dia; daí a frieza e tibieza em que ficamos. Se estivéssemos perfeitamente mortos a nós mesmos e interiormente desimpedidos, poderíamos criar gosto pelas coisas divinas e algo experimentar das doçuras da celeste contemplação. O que principalmente e mais nos impede é o não estarmos ainda livres das nossas paixões e concupiscências, nem nos esforçamos por trilhar o caminho perfeito dos santos. Basta pequeno contratempo para desalentarmos completamente e voltarmos a procurar consolações humanas. Se nos esforçássemos por ficar firmes no combate, como soldados valentes, por certo veríamos descer sobre nós o socorro de Deus. Pois ele está sempre pronto a auxiliar os combatentes confiados em sua graça: Aquele que nos proporciona ocasiões de peleja para que logremos a vitória. Se fizermos consistir nosso aproveitamento espiritual tão somente nas observâncias exteriores, nossa devoção será de curta duração. Metamos, pois, o machado à raiz, para que, livre das paixões, goze paz nossa alma. Se cada ano extirpássemos um só vício em breve seríamos perfeitos. Mas agora, pelo contrário, muitas vezes experimentamos que éramos melhores, e nossa vida mais pura, no princípio da nossa conversão que depois de muitos anos de profissão. O nosso fervor e aproveitamento deveriam crescer, cada dia; mas, agora, considera-se grande coisa poder alguém conservar parte do primitivo fervor. Se no princípio fizéramos algum esforço, tudo poderíamos, em seguida, fazer com facilidade e gosto. Custoso é deixar nossos costumes; mais custoso, porém, contrariar a própria vontade. Mas, se não vences obstáculos pequenos e leves, como triunfarás dos maiores? Resiste no princípio à tua inclinação e rompe com o mau costume, para que te não metas pouco a pouco em maiores dificuldades. Oh! Se bem considerasses quanta paz gozarias e quanto prazer darias aos outros, se vivesses bem, de certo cuidarias mais do teu adiantamento espiritual. …” (A imitação de Cristo, I, 11. Disponível em: http://www.culturabrasil.org/imitacao.htm Acesso em 23 out. 2010). E há ainda hoje quem ache que os maus costumes não inibem o avanço espiritual dos crentes…

- Também aqui devemos tomar cuidado com a obsessão que estes “arautos da meditação” estão a fazer com relação à postura física para a meditação, algo que é essencial na “meditação esotérica”, já que deve haver um “desprendimento do corpo”, sua “aniquilação” e a postura física traz, inegavelmente, uma influência na criação deste estado psicológico de desprendimento. Assim como não há uma postura física que se impõe à oração, não pode haver, também, posturas físicas impostas para a meditação.

- Não se nega que a meditação exige uma certa postura física, um ambiente em que não haja distração, mas a obsessão que se tem com relação a este aspecto é mais um indicador da influência alheia à Palavra de Deus que possuem tais técnicas de meditação. Ademais, como bem ponderou o já mencionado documento romanista, “…Viver no âmbito da oração toda a realidade do próprio corpo como símbolo, é ainda mais difícil: pode degenerar em culto do corpo e levar a identificar subrepticiamente todas as suas sensações com experiências espirituais. Alguns exercícios físicos produzem automaticamente sensações de repouso e de distensão, que são sentimentos gratificantes; podem talvez até produzir fenômenos de luz e de calor, que se assemelham a um bem-estar espiritual. Trocá-los, porém, por autênticas consolações do Espírito Santo, seria um modo totalmente errôneo de conceber o caminho espiritual. Atribuir-lhes significados simbólicos típicos da experiência mística, quando o comportamento moral do praticante não está à sua altura, representaria uma espécie de esquizofrenia mental, o que pode conduzir até a perturbações psíquicas e, em certos casos, a aberrações morais.…( SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. op.cit., nn.27 e 28).

OBS: Elucidativas são as palavras do monge beneditino D. Estevão Bittencourt (1919-2008) a respeito: “…Os hinduístas, especialmente os budistas, é que cultivam exercícios corporais para praticar a meditação. Nisto são inspirados por sua mentalidade panteísta, que identifica entre si a Divindade e o homem; este seria uma centelha da Divindade apoucada ou encarcerada pela matéria. Os exercícios físicos ttêm a função de fazer que a centelha divina (existente no íntimo do homem) se emancipe das limitações da matéria e entre em sintonia com a divindade existente fora do homem; as posturas físicas, o ritmo respiratório, a dieta alimentícia desempenham assim papel Importante, porque, segundo esta concepção, contribuem para libertar o núcleo central do homem.(…) Nos últimos anos alguns autores católicos têm procurado adaptar a metodologia hinduísta à prática cristã da oração, recomendando exercícios físicos diversos para se conseguir chegar à mais profunda união com Deus.(…) É possível, sim, que os exercícios corporais proporcionem certo bem-estar físico, facilitando a respiração e o metabolismo; todavia esse bem-estar ou essas condições higiênicas não é oração, nem são necessariamente a melhor preparação ou o melhor o concomitante da oração .(…) Quem muito valoriza os exercícios corporais para rezar, corre o risco de identificar oração e bem-estar higiêniCO, ou também o risco de identificar gestos corpóreos e valores éticos espirituais(…) (O mantra na espiritualidade cristã. Pergunte e responderemos, n. 408, ano 1996, p.209. Disponível em: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:WzfR5pSNdFwJ:www.cleofas.com.br/virtual/texto.php%3Fdoc%3DESTEVAO%26id%3Ddeb0115+medita%C3%A7%C3%A3o,+felipe+de+aquino,+estev%C3%A2o+bettencourt&cd=6&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br Acesso em 21 out. 2010)

- Depois de termos sido lavados e purificados no sangue de Cristo (I Jo.1:7), temos condição de prosseguir na meditação, fazendo lembrança de Suas obras (Sl.63:6), refletindo e meditando em Sua Palavra (Sl.119:148), aguardando, em silêncio, a presença do Senhor. Este processo é chamado pelos estudiosos de “iluminação”, porque é nesta reflexão a respeito do Senhor que o Espírito Santo nos faz conhecer a Sua Palavra, abre nossas mentes para as realidades espirituais, o que já é o início do diálogo com o Senhor, que, pela Sua Palavra ou por Suas obras, começa a falar com o nosso homem interior. O Espírito Santo nos guia em toda a verdade neste instante da meditação.

- Por fim, temos o terceiro estágio da meditação, conhecido como “união”, uma experiência particular que depende da vontade de Deus. Esta união é um “mistério”, algo que é de impossível descrição, em que desfrutamos de um compartilhamento todo especial com Deus, de uma intimidade, de uma manifestação da Sua glória. Por isso mesmo, como bem afirma o documento católico romano a que nos referimos já algumas vezes, não é possível criar-se uma “técnica” para se chegar à “união mística”, pois isto independe do homem, mas única e exclusivamente de Deus. “…A mística cristã autêntica não tem nada a ver com a técnica: é sempre um dom de Deus, do qual se sente indigno quem dele se beneficia…” (SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. op.cit., n.23).

- Esta experiência, ademais, é particular, relacionada com a intimidade entre aquele que medita e o Senhor, algo que não poderá ser, por isso, pretendido nem copiado por outra pessoa. Tem-se aqui uma manifestação espiritual peculiar, que jamais poderá se tornar em uma doutrina, aplicável a todos os servos de Deus. Devemos nunca nos esquecer disto, para que não busquemos o que não nos é oferecido, como também não julguemos os outros pelo que tenhamos nós experimentado com o Senhor em nossa intimidade espiritual.

- “… A meditação é um dever que precisamos praticar, se desejamos o nosso próprio bem-estar espiritual. A meditação deveria ser deliberada, intensa e contínua (ver Sl.1:2; 119:97). Os assuntos em torno dos quais a mente do crente mais deveria ocupar-se são as seguintes: as obras da criação (Sl.19); as perfeições de Deus (Dt.32:4); o ofício e as operações do Espírito Santo (Jo. 15 e 16); a dispensação da providência divina (Sl.97:1,2); os preceitos e promessas existentes na Palavra de Deus (Sl.119); o valor dos poderes da alma e sua imortalidade (Mc.8:36) e, finalmente, a depravação de nossa própria natureza, e a graça de Deus, em nossa salvação etc.” (CHAMPLIN, Russell Norman. Meditação. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. v.4, p.200) (destaques originais).

- “…Meditação na Palavra dirigirá nossos pensamentos ao Senhor Jesus, e na mais doce
comunhão com o Senhor nós pensaremos em Sua Pessoa, caráter, obra, glórias e muito
mais, até que as nossas almas estejam ocupadas com Ele Mesmo e nossos corações se derramem em adoração a Ele. Lembre-se de meditar nas obras de Deus (leia Salmo 143:5- 6). Talvez Davi pensasse acerca de Deus preservando-o quando ele matou o leão e o urso, ou quando ele matou Golias. Não pensava ele das grandezas da Criação e dos maravilhosos feitos de Deus em relação a Israel? Meditar nas obras de Deus fazia-lhe ter sede de Deus e orar a Ele. Assim, quanto a nós mesmos, ao invés de nos afligirmos acerca dos nossos problemas, deveríamos pensar nas grandes coisas que Deus tem feito por nós, como Deus tem nos salvado, disciplinado, guiado e preservado. Eu tenho temido coisas que nunca aconteceram e tenho frequentemente esquecido de agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas. Não se esqueça de meditar (‘pensar’, King James Version) nos lindos assuntos de Filipenses 4:8. Fazer isso nos fará perceber quão longe nós podemos chegar em pouco tempo. Nós deveríamos ver neste verso um retrato do Senhor Jesus. Se nossas mentes estão cheias destas coisas, não haverá lugar para pensamentos que desagradam ao Senhor.” ((NORRIS, John. A importância da meditação na vida do crente. Truth and tidigns, maio 1995, Trad. e adapt. por Claudinei Benedito Benedito. Disponível em: http://www.exame.diario.nom.br/a-import.pdf Acesso em 21 out. 2010).


                                                                 Caramuru Afonso Francisco

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