10.3.11

O GOVERNO DA IGREJA PRIMITIVA - Complemento 2 para as Lições Bíblicas CPAD 1/2011

IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS - MINISTÉRIO DO BELÉM

ESTUDO DA PALAVRA DE DEUS PARA OS AMIGOS E PROFESSORES DA ESCOLA DOMINICAL (EPAPED)
BELÉM- SEDE
PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2011

TEMA –  Atos dos Apóstolos – até os confins da terra


COMENTARISTA :  Claudionor de Andrade


APÊNDICE Nº 2 – O GOVERNO DA IGREJA PRIMITIVA
                            Atos mostra-nos o correto modelo de governo da Igreja.

Texto áureo
“E, havendo-lhes, por comum consentimento, eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (At.14:23).


INTRODUÇÃO
- Em complemento ao estudo deste trimestre letivo sobre o livro de Atos, falaremos, ainda que sucintamente, a respeito do governo da Igreja, questão das mais tormentosas ao longo da história da Igreja.

- O livro de Atos dos Apóstolos dá-nos o princípio a respeito do governo da Igreja, mostrando que há governo mas que, também, nesta matéria, há uma multiformidade.

I – A IGREJA TEM GOVERNO

- A Igreja, como temos visto ao longo do estudo deste trimestre letivo, é um povo formado tanto por judeus quanto gentios que se reuniram em torno de Cristo Jesus, passando a ter comunhão com Deus (Ef.2:11-22).

- - As Escrituras revelam-nos que, com a vitória de Cristo sobre a morte e o inferno, forma-se um povo especial, zeloso e de boas obras(Tt.2:14), a saber, a Igreja. Ao nos mostrar que a Igreja é um povo, a Bíblia já nos mostra que a Igreja difere dos outros dois povos que existem sobre a face da Terra, ou seja, os gentios e os judeus.

- Dizer que a Igreja é um povo, uma nação (I Pe.2:9), é algo muito significativo, pois as Escrituras mostram, desta maneira, que a Igreja é diferente de tudo quanto já existia no mundo quando de seu surgimento. Além do mais, ao considerar a Igreja como um povo, Deus distingue a Igreja seja dos gentios, seja dos judeus (I Co.10:32).

- Ser uma nação representa ter elementos próprios de uma nação. Quando analisamos os estudos científicos sociais (sociologia, antropologia, política, direito, entre outros), vemos que uma nação se identifica como sendo “…agrupamento político autônomo que ocupa território com limites definidos e cujos membros, ainda que não necessariamente com a mesma origem, língua, religião ou raça (como fazia crer um conceito mais antigo), respeitam instituições compartidas (leis, constituição, governo)” (Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa).

- Ora, para que se tenha uma nação, faz-se preciso, em primeiro lugar, que se tenha um grupo de pessoas. Ora, a Igreja é um conjunto de pessoas, a saber, o grupo de pessoas que tiveram suas vestes lavadas no sangue do Cordeiro (Ap.22:14), que não são estrangeiros nem forasteiros, mas cidadãos legítimos desta nação (Ef.2:14-19).

- Em segundo lugar, para que se tenha uma nação, faz-se mister que o grupo de pessoas tenha autonomia política, ou seja, tenha um governo próprio e que seja independente de qualquer outro grupo, que tenha as suas próprias leis. É exatamente esta a situação da Igreja, visto que possui uma cabeça, que é Jesus (Ef.1:22; 5:23), seguindo única e exclusivamente a Seus mandamentos (Jo.15:10-17; At.5:29; I Jo.2:3-8).

- Em terceiro lugar, para que se tenha uma nação, é necessário que haja um território com limites definidos. Nisto reside a grande diferença da nação que é a Igreja da dos gentios e da dos judeus. A Igreja tem como território o “reino de Deus”(Mt.21:43; Jo.3:5), que não é deste mundo (Jo.18:36), mas, sim, os “lugares celestiais em Cristo” (Ef.1:3; 2:6). Por isso, em toda a parte, em todo o lugar, em todas as nações, a Igreja estará presente até que venha o fim (Mt.24:14).

- Em quarto lugar, a Igreja é uma nação porque seus membros, embora não tenham a mesma origem, língua, religião ou raça (Ef.2:11-14), ao crerem em Jesus Cristo, passaram da morte para a vida (Jo.5:24; I Jo.3:14) e, por isso, compartilham das mesmas instituições, ou seja, têm a mesma conduta de vida, as mesmas leis, porque observam aquilo que Jesus lhes mandou, devendo, por isso, desempenhar tarefas que lhe foram determinadas pelo Senhor.

- A presença de um governo na Igreja, portanto, é inevitável, indispensável para que se caracterize esta “nação santa”. Não foi à toa que Tiago, o irmão do Senhor, disse que, com a Igreja, havia ocorrido a “reedificação do tabernáculo de Davi” (At.15:16), ou seja, a casa de Davi voltou a reinar sobre o povo de Deus.

II – JESUS, A CABEÇA DA IGREJA

- Por isso, vemos, por primeiro, que o governo da Igreja é exercido por Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Ele é o Senhor, ou seja, o dono, o proprietário, Aquele que tem o poder sobre todos os salvos, a quem resgatou com Seu sangue precioso vertido na cruz do Calvário (At.20:28; I Co.6:19,20). Por isso, as Escrituras nos mostram que Ele é a cabeça da Igreja (Ef.1:22; 5:23).

- Atos mostra-nos esta realidade logo em seu início, quando nos mostra que Jesus foi recebido no céu não antes de dar mandamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que escolhera (At.1:2). A Igreja foi constituída por Jesus e tem como regras “os mandamentos do Senhor”, que foram dados aos “apóstolos que escolhera”, ou seja, àqueles que Ele mesmo escolheu e enviou para continuar aquilo que Ele começara a fazer e a ensinar (At.1:1).

- Vemos, pois, de pronto, que a “Constituição”, a “Lei Maior” da Igreja são os “mandamentos de Jesus”. E quais são estes mandamentos? É o novo mandamento, que o Senhor deu nas Suas últimas instruções: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo.15:12). Este mandamento de Cristo, que resume toda a lei e os profetas, é desdobrado em tudo quanto se encontra na Bíblia Sagrada, pois é ela quem testifica de Jesus (Jo.5:39).

- Portanto, quando dizemos que Jesus é a cabeça da Igreja, estamos a dizer que Ele é o Senhor da Igreja, que Ele é quem dá as ordens e estas ordens estão contidas no Seu mandamento, que é o amor ao próximo com o amor de Deus, mandamento este que é explicitado, testificado na Bíblia Sagrada. Por isso, dizemos que a Bíblia Sagrada é a nossa única regra de fé e prática.
OBS: Este é o significado do item 2 do “Cremos” das Assembleias de Deus no Brasil, que ora reproduzimos “ipsis litteris”: “ CREMOS … 2. Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão (2 Tm 3.14-17).”

- Jesus é a cabeça da Igreja e, por isso, ninguém pode dar qualquer outra ordem senão o que estiver contido nas Escrituras, Escrituras estas que foram completadas com o livro do Apocalipse, quando o próprio Jesus fez uma revelação a João e pessoalmente encerrou a inspiração escriturística (Ap.22:18,19). Ele é o Verbo (Jo.1:1) e, portanto, não há possibilidade de qualquer ordem ou determinação além do que foi testificado na Bíblia Sagrada. Não podemos ir além do que está escrito (I Co.4:6).

- Jesus entregou os mandamentos aos apóstolos que escolhera pelo Espírito Santo (At.1:2). Assim, o meio pelo qual Jesus governa a Igreja, uma vez que ausente em corpo até aos tempos da restauração de tudo (At.3:21), é através do Espírito Santo, que desceu do céu para ser o “Vigário de Cristo”, o “outro Consolador” (Jo.14:16), Aquele que está com a Igreja e no interior de cada salvo (Jo.14:17) até a volta do Senhor (Jo.14:2,3).

- Jesus é a cabeça da Igreja, o Senhor da Igreja, mas o Espírito Santo é Aquele que substitui a companhia que se tinha durante o ministério terreno de Cristo. O Espírito Santo é o “Vigário de Cristo”, ou seja, Aquele que substitui o Senhor Jesus, orientando e dirigindo os salvos, fazendo-os lembrar das palavras de Cristo e os preparando para se encontrar com Jesus nos ares.

- Jesus é o Rei e o Espírito Santo é uma espécie de “primeiro-ministro”, de executor e promotor da vontade de Cristo neste mundo, com a Igreja e através da Igreja. Por isso, a Igreja tem um só Espírito, um só Senhor e um só Deus e Pai de todos (Ef.4:4-6).

- Por isso, Jesus disse que era a videira verdadeira e nós, as varas da videira (Jo.15:5), mas varas que estejam em comunhão com o Senhor (Jo.15:4), comunhão que é propiciada e realizada pelo Espírito Santo, sem o que não podemos dar fruto, fruto que nos fará glorificar o Pai e nos dará a condição de discípulos, de cidadãos desta nação chamada Igreja (Jo.15:8).

- Por fim, ainda falando sobre Jesus como a cabeça da Igreja, vemos que a expressão bíblica denota que se tem apenas uma única cabeça, até porque há um só Senhor. Jesus não é visível aos salvos, pois foi recebido em cima no céu, como também o Espírito Santo não é visto, pois é como um vento, que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai. Todavia, os salvos são aqueles que creem  sem ver, residindo nisto a sua bem-aventurança (Jo.20:29).

- Por isso, não há qualquer necessidade de se ter uma “cabeça visível” para a Igreja, como defendem os romanistas. Ninguém precisa ocupar o lugar de Cristo de forma visível para o governo da Igreja, visto que a “visibilidade” não é necessária para o povo de Deus. Jesus governa a Igreja e mandou o Espírito Santo para que execute tudo quanto Ele quer e deseja. Precisamos apenas estar em comunhão com Cristo, pelo Espírito Santo. Não se faz necessário qualquer “Papa” (que quer dizer “Pai”) para nos guiar, em nome de Cristo, pois a ninguém devemos chamar de “Pai” a não ser a Deus que está nos céus (Mt.23:9).

III – OS APÓSTOLOS, FUNDAMENTOS SEGUNDOS DA IGREJA

- No livro de Atos, vemos que Jesus deu mandamentos aos apóstolos que escolhera (At.1:2), ou seja, os Seus imediatos eram os apóstolos. E quem eram os apóstolos? Aquele que Ele escolhera, aqueles que conviveram com o Senhor Jesus todo o tempo do Seu ministério terreno, desde o batismo de João até a ascensão, sendo testemunha de Sua ressurreição (At.1:21,22).

- Notamos, portanto, que os apóstolos são “o segundo escalão” do governo da Igreja, seguindo-se imediatamente a Cristo e ao Espírito Santo. Sua função era a de ensinar aquilo que haviam recebido de Jesus aos que se haviam de salvar, aquilo que Lucas chama de “doutrina dos apóstolos” (At.2:42) ou “oração e ministério da Palavra” (At.6:4).

- Os apóstolos, ao lado dos profetas, constituem os fundamentos segundos do edifício chamado Igreja (Ef.2:20), cujo fundamento, cuja principal pedra da esquina é Jesus (I Co.3:11; I Pe.2:4,6). Por isso, muito apropriado dizer-se que a Igreja é apostólica, como constou no Credo Niceno-Constantinopolitano, elaborado no Primeiro Concílio de Constantinopla em 381.

- Os apóstolos tinham a missão de ensinar tudo quanto haviam aprendido de Jesus aos que se haviam de salvar. Foram especialmente enviados pelo Senhor Jesus para esta tarefa, não só ensinando verbalmente, lembrados e dirigidos que eram pelo Espírito Santo, mas também sendo instrumentos para a complementação da revelação da Bíblia Sagrada.

- Os apóstolos tinham plena consciência, pois assim haviam aprendido com o Senhor Jesus que, na Igreja, ao contrário do que ocorria entre judeus e gentios, o governo é visto sob o prisma do serviço, ou seja, o grande é sempre o serviçal, aquele que serve (Mt.20:25-28; Mc.10:41-45). Por isso, Paulo diz aos coríntios que o fato de ser apóstolo o fazia o “hiperetes” (I Co.4:1), ou seja, “… em poucas palavras, um escravo do mais baixo nível social e que remava no interior das galés.…” (LIMA, Saulo Gomes de. Ministros ou escravos?  Hiperetes. 02 dez. 2009. Disponível em: http://sglima.blogspot.com/2009/12/hiperetes-ministro-ou-escravo.html Acesso em 29 jan. 2011).

- Na narrativa de Atos, em momento algum, vemos os apóstolos sendo servidos, mas, bem ao contrário, vemo-los servindo ao povo de Deus, ensinando, pregando, orando, curando enfermos e expulsando demônios, sem falar nas prisões e perseguições que sofriam a todo o tempo. Não havia, entre os apóstolos, qualquer expressão de vaidade ou de exercício de poder, mas, bem ao contrário, uma determinação de fazer a obra de Deus.

- Os apóstolos são, pois, este liame entre Jesus e a Igreja na transmissão dos mandamentos, na transmissão da Palavra. Era este o seu papel e, por isso, com a morte de João, encerrou-se este trabalho, não havendo mais que se falar em apóstolos, que foram postos na Igreja, “primeiramente” (I Co.12:28), ou seja, num primeiro momento, para a edificação do corpo de Cristo.

III – A ESTRUTURAÇÃO DA IGREJA

- Na sua minudente narrativa, Lucas mostra que, com o crescimento da Igreja, os apóstolos já não tinham mais condição de cuidar dos assuntos materiais, relacionados com a assistência social às viúvas. Por isso, em consenso com os salvos, criaram o diaconato, separando sete varões cheios do Espírito Santo, para que administrassem o “ministério cotidiano”, ou seja, o cuidado aos necessitados (At.6:1-7).

- Temos aqui o início da estruturação da Igreja. Por primeiro, vemos que, a exemplo do que já se tinha visto na história de Israel (Ex.18:13-26), é mister que haja uma descentralização no exercício das tarefas. Não se trata de “burocratização”, mas de uma necessária distribuição de missões entre os crentes, para que se tenha um serviço eficiente e eficaz.

- Diante do problema surgido, os apóstolos convocaram a multidão e discutiram o que faz, tudo, naturalmente, sob a direção e orientação do Espírito Santo. Entretanto, o Espírito Santo está em todo crente e, por isso, as deliberações devem ser tomadas em conjunto com todos os salvos. Outra lição que aprendemos é que a Igreja, como um todo, deve participar das deliberações a ser tomadas. Afinal de contas, a Igreja é “ekklesia” (εκκλησια), cujo significado é “reunião para fora”, a mesma expressão que se utilizava para as assembleias que, nas cidades gregas, tomavam as decisões cruciais do governo da polis (a “cidade grega”).
OBS: Por isso, como ensina o pastor João Maria Hermel, presidente das Assembleias de Deus de Passo Fundo/RS, Jesus fez questão de dizer que edificaria a “Sua” Igreja, para distinguir a Igreja das demais assembleias, reuniões que existiam naquela época.

- Embora fossem apóstolos, os doze sabiam que estavam ali para servir e que não eram maiores do que qualquer outro salvo. Por isso, para resolverem este problema, tinham de ter a participação ativa dos demais crentes, daí porque não só convocaram a multidão como também determinaram que eles escolhessem, dentre eles, sete diáconos, mediante os requisitos estabelecidos pelos próprios apóstolos, quais sejam: varões, cheios do Espírito Santo e de sabedoria.

- Não há, pois, aquilo que, hoje em dia, costuma-se denominar de “visão do líder”, que deve ser acolhida e adotada irrefletidamente por parte dos demais crentes. É verdade que aquele a quem Deus constitui sobre o Seu rebanho é o que “preside”, ou seja, aquele que está diante, à frente do povo e que, portanto, aquele a quem o Senhor, por meio do Espírito Santo, apresenta, de modo privilegiado, as necessidades do povo e os rumos que deve tomar a obra de Deus. Todavia, isto não significa, em absoluto, que se deva omitir a participação ativa dos demais crentes, pois é na multidão de conselheiros que se encontra a segurança (Pv.11:14), que se confirmam os projetos (Pv.15:22), que se terá vitória na guerra que a Igreja empreende contra o maligno (Pv.24:6).

- Os apóstolos eram serviçais, não dominadores, por isso não impunham coisa alguma, mas pediam a participação dos crentes para que, juntos, seguindo a orientação do Espírito Santo, seguissem fazendo a vontade de Deus. Por isso, o resultado desta atitude foi o crescimento da Igreja (At.6:7).

- No concílio de Jerusalém, não se fez diferente. Diante da controvérsia surgida por causa da observância da lei por parte dos gentios, apóstolos e anciãos se reuniram em Jerusalém para tratar do tema (At.15:6). Entretanto, observamos, pelo texto sagrado, que toda a igreja em Jerusalém participou do evento, tanto que foi a igreja quem escolheu os remetentes da carta que continha a deliberação tomada, como também, na própria carta, consta que toda a igreja assim deliberou (At.15:22,23).

- Até em assunto doutrinário, que foi, primeiramente, projetado para ser discutido entre os apóstolos e os anciãos, houve a participação de todos, dos “irmãos”. Esta expressão, aliás, denota como se deve encarar o relacionamento entre cada crente. Independentemente das funções e vocações que tenham, são todos “irmãos”, porque todos são “filhos de Deus” (Jo.1:12,13), “herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo” (Rm.8:17).

- Por isso, não é de se estranhar cenas da igreja primitiva como a satisfação que Pedro teve de dar à igreja em Jerusalém por causa do batismo nas águas que fez na casa de Cornélio (At.11:1-18) ou a repreensão pública que o próprio Pedro recebeu de Paulo em Antioquia (Gl.2:11-14), gestos que demonstram a inexistência de qualquer imunidade ou infalibilidade por parte dos apóstolos, nem tampouco uma “hierarquia”, uma distinção de sacerdócio entre os crentes da igreja primitiva.

- Com a dispersão do povo de Jerusalém, temos que o Evangelho, na medida em que era propagado, era estruturado em igrejas locais, grupos de pessoas que se reuniam numa determinada localidade, após terem se convertido ao Senhor (At.9:31).

- Tais igrejas, naturalmente, reconheciam a autoridade dos apóstolos que, no entanto, não tinham qualquer outra preocupação senão verificar se se estava a observar a doutrina que haviam ensinado. Não se formavam “impérios eclesiásticos”, apenas se fazendo uma “supervisão doutrinária”, como vemos nas visitas realizadas por Pedro que seguiam as pisadas de Filipe, agora um evangelista, após ter começado o trabalho em Samaria e ido até Cesareia (At.8:40; 9:32).

- Em Samaria, a propósito, vemos bem isto. Filipe para lá foi e começou a pregar o Evangelho e, naturalmente, a presidir sobre aqueles novos crentes. Sabendo da notícia em Jerusalém, os apóstolos mandaram para lá Pedro e João que, ao verificarem o que estava ocorrendo, notaram que aqueles crentes ainda não tinham recebido o dom do Espírito Santo e, por isso, oraram para que eles fossem revestidos de poder. Depois, voltaram para Jerusalém, mantendo Filipe ali que somente saiu por ordem do Senhor (At.8:1-26).

- Que diferença para os nossos dias! Nenhuma preocupação com poderio, com criação de estruturas que fossem dependentes em tudo dos apóstolos em Jerusalém. Muito pelo contrário, os apóstolos aprenderam com Filipe que se podia pregar aos samaritanos e, de retorno a Jerusalém, passaram a evangelizar também este povo.

- Estas igrejas locais organizaram-se de forma bem simples. Naturalmente, havia aquele que presidia sobre eles, os chamados “anciãos”, “presbíteros” ou “bispos”, expressões equivalentes em o Novo Testamento. As igrejas eram autônomas e conviviam em paz, “andando no temor do Senhor e consolação do Espírito Santo” (At.9:31).

- Quando o Evangelho chegou a Antioquia, ao saber da notícia, os apóstolos mandaram para lá Barnabé que, lá chegando, assumiu a liderança da Igreja, trazendo Paulo para ensinar aquela gente. Naquela igreja, o Espírito Santo mandou que Barnabé e Paulo fossem separados para a missão e, assim, Barnabé que estava à testa daquela igreja, passou a ser missionário, empreendendo a primeira viagem missionária com Paulo. Que desprendimento de cargo, de poder. Todos ali eram dirigidos pelo Espírito Santo (At.14:2,3)!

- Ao término da primeira viagem missionária, Barnabé e Paulo não deixaram as igrejas formadas sem governo. Em todas elas, diz-nos Lucas, em consentimento com os irmãos, elegeram anciãos, com oração e jejum, pondo-os à frente de cada igreja local.

- Toda igreja local tinha o seu governo. Os “anciãos” ou “presbíteros” (que nada mais é que a palavra grega para “ancião”), também chamados de “pastores” (Hb.13:7,17) ou, ainda, “bispos” (At.20:28; I Tm.3:2; Tt.1:7) são pessoas escolhidas, em comum acordo com os irmãos, para estar à frente da igreja local, para cuidar do “rebanho do Senhor” (I Pe.5:1-3).

- O regime de governo é “teocrático”, ou seja, é Deus quem governa a Igreja. Quem deve escolher o dirigente da igreja local? O Espírito Santo. Como é feita a escolha? Mediante oração e jejum, em comum acordo com toda a igreja. É este o sistema estabelecido na Bíblia Sagrada. Barnabé e Paulo, que haviam sido escolhidos pelo Espírito Santo para abrir aquelas igrejas, reuniram cada igreja local e, em comum acordo, oraram e jejuaram todos para que se fizesse a escolha de acordo com a orientação do Espírito Santo.

- Todos os irmãos têm o Espírito Santo e, portanto, quando se busca a Sua orientação e direção, certamente o próprio Senhor Jesus, que está presente quando dois ou três estiverem reunidos em Seu nome (Mt.18:2). Não se trata de “democracia”, pois o povo não simplesmente elege aquele que lhe agrada; também não se trata de “aristocracia”, pois não é um grupo de poucos que faz a escolha em nome de todos; muito menos de “monarquia”, em que apenas um indica, a seu bel-prazer, quem deve ocupar o posto.

- Precisamos, pois, ter muito cuidado quando se fala em “sucessão apostólica”. Os apóstolos foram “sucedidos”, ou seja, no governo da Igreja, ainda quando estavam vivos, punham à frente do povo pessoas para exercer as funções de “ancião”, “presbítero”, “pastor” ou “bispo”, que tinham a missão de cuidar do “rebanho de Deus”, exercendo o ministério da Palavra e da oração em lugar dos apóstolos, pessoas que eram escolhidas, em comum acordo, com os irmãos das igrejas locais, sob direção e orientação do Espírito Santo.

- Ao lado dos “anciãos”, “presbíteros”, “pastores” ou “bispos”, havia, também, os “diáconos”, que eram escolhidos na igreja local para exercer o “ministério cotidiano”, ou seja, cuidar das coisas materiais, atinentes à assistência social e à vida secular de cada irmão.

- Todos estes deveriam ser escolhidos em comum acordo com a igreja local e,  além de serem, necessariamente, cheios do Espírito Santo, pré-requisito estatuído pelo Senhor Jesus antes de ascender aos céus para os próprios apóstolos (At.1:8; 6:3), deveriam preencher os seguintes requisitos para a função, a saber:
a) “anciãos”, “presbíteros”, “pastores” ou “bispos” (I Tm.3:1-7; Tt.1:5-9) – irrepreensível; marido de uma mulher; vigilante; sóbrio; honesto; hospitaleiro; apto para ensinar; não dado ao vinho; não espancador; não cobiçoso de torpe ganância; moderado; não contencioso; não avarento; que governe bem a sua casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia; não neófito, que tenha bom testemunho dos que estão de fora; que retém firme a fiel Palavra.
b) “diáconos” (At.6:3; I Tm.3:8-10,12) – cheio de sabedoria, honesto, não de língua dobre, não dado a muito vinho, não cobiçoso de torpe ganância, que guarda o mistério da fé em uma pura consciência, tenham sido primeiramente provados e achados irrepreensíveis; marido de uma mulher; que governe bem a seus filhos e suas próprias casas.


IV – A ESTRUTURAÇÃO DA IGREJA APÓS OS DIAS APOSTÓLICOS


- Como sabemos, o livro de Atos encerra sua narrativa quando Paulo estava preso em Roma, antes até da primeira grande perseguição sofrida pela Igreja no Império Romano. No entanto, quando analisamos tanto as cartas de Paulo após este período (as chamadas “cartas da prisão” e as “epístolas pastorais”) quanto os escritos de João, notamos que a igreja mantinha a estruturação iniciada com a expansão do Evangelho entre os gentios, ou seja, com igrejas locais dirigidas por “anciãos”, “presbíteros”, “pastores” ou “bispos” e “diáconos”, escolhidos em comum acordo com a igreja local, sob supervisão dos apóstolos, que, pessoalmente, ou por enviados (como Tito, v.g.), dirigiam tais escolhas.

- Ao longo da história da Igreja, no entanto, tivemos o surgimento de três modelos de governo da Igreja, a saber:

a) o sistema episcopal – as igrejas locais são dirigidas por um “bispo”, aquele que “supervisiona”, “observa” o rebanho de Deus numa determinada localidade. É ele quem governa a Igreja, em torno de quem se desempenham as tarefas da Igreja naquele determinado lugar, a sua “diocese”. Os “bispos” que haviam sido postos pelos apóstolos, em alguns lugares, governavam sozinhos, estabeleceram uma “monarquia” (governo de um só), considerando-se “sucessores dos apóstolos”. É o sistema adotado, entre outros, pela Igreja Romana, pela Igreja Metodista, pela Igreja Universal do Reino de Deus.

b) o sistema presbiteriano – as igrejas locais são dirigidas por um “presbitério”, ou seja, o conjunto dos “presbíteros”, que foram escolhidos pela igreja local. São os “presbíteros” quem escolhem os “pastores”, e que se reúnem regularmente em “sínodos”, para tomar deliberações. Esta sistemática observamos, por exemplo, na igreja de Éfeso, pois foi o “presbitério” quem havia imposto as mãos sobre Timóteo (I Tm.4:14). Neste caso, os “presbíteros” ou “bispos” constituídos pelos apóstolos não governavam sozinhos, mas em grupo (At.20:28). O colegiado que se dizia “sucessor dos apóstolos”. É o sistema adotado, entre outros, pela Igreja Presbiteriana.

c) o sistema congregacional – as igrejas locais são dirigidas pela “congregação”, ou seja, a reunião dos irmãos. São eles quem escolhem os “pastores” e que tomam as deliberações referentes à administração da igreja local. Entenderam estes que os anciãos” haviam sido eleitos pelos irmãos, após orações com jejuns (At.14:23) e, portanto, quem deveria “suceder os apóstolos” era a congregação. É o sistema adotado, entre outros,  pela Igreja Congregacional e pela Igreja Batista.

- Todos estes modelos surgidos ao longo da história da Igreja buscam fundamentação bíblica. Na verdade, se virmos o livro de Atos, não há uma indicação de um destes modelos. Atos foi escrito quando ainda viviam os apóstolos e, com a falta destes, evidentemente se teve uma modificação no que se estava a fazer até então. A propósito, quando ainda João vivia, já notamos que as igrejas locais estavam a se organizar de modo a suprir a ausência dos apóstolos, tanto que já havia quem até proibisse João de ter acesso e contato com os irmãos de uma igreja local (III Jo.9).

- A partir do estabelecimento de “anciãos”, “presbíteros”, “pastores” ou “bispos” nas igrejas locais, temos uma estrutura de governo que se resumia a estes dirigentes (que não eram necessariamente únicos em cada igreja local, pois, já em Jerusalém, a Bíblia afirma que havia “anciãos”, ou seja, mais de um) e aos “diáconos”, que continuaram a ser escolhidos para cuidar do “ministério cotidiano” (Fp.1:1), tanto que Paulo orienta tanto Timóteo quanto Tito a respeito da escolha destas pessoas (I Tm.3; Tt.1:5-9).

- O crescimento da obra de Deus fez com que surgissem estes três sistemas. Quando houve centralização em torno de uma liderança de uma igreja local, que passou a supervisionar as demais, temos o surgimento do sistema episcopal; quando houve uma semicentralização, em torno de um grupo de líderes, que deu origem ao “presbitério” (I Tm.4:14), temos o sistema presbiteriano; quando, por fim, houve a preponderância da congregação, temos o sistema congregacional. Como as Escrituras não dizem clara e explicitamente quem deveria “suceder os apóstolos”, temos de admitir os três sistemas como válidos.

- Atos mantém a questão em aberto, mostrando que a forma de governo da Igreja faz parte da multiformidade tanto da sabedoria quanto da graça de Deus (Ef.3:10; I Pe.4:10), dentro, porém, dos princípios básicos que já analisamos, quais sejam: o senhorio de Cristo, mediante a ação do Espírito Santo; a descentralização que permita a eficiência e eficácia do serviço, com distinção entre o ministério da Palavra e o cuidado das coisas materiais e a participação ativa da Igreja. Havendo estes três elementos, o resultado será o mesmo que vemos relatado nos dias apostólicos: o crescimento da Igreja e o integral cumprimento da Grande Comissão.

- As Assembleias de Deus no Brasil estruturaram-se sem seguir um destes sistemas existentes ao longo da história da Igreja, num modelo “sui generis” que não produziu bons resultados. Senão vejamos.

- Os missionários pioneiros, a começar de Daniel Berg e Gunnar Vingren, embebidos pelo mesmo espírito dos apóstolos e desbravadores que serviram ao Senhor, não se preocuparam, também, com poder, cargos ou em formar “impérios eclesiásticos”, mas tão somente em fazer a obra do Senhor, anunciando que “Jesus salva, cura, batiza com o Espírito Santo e leva para o céu”.

- Assim, enquanto expandiam o reino de Deus em nosso país, os missionários constituíam sobre as igrejas locais obreiros que apascentassem o rebanho do Senhor, rigorosamente dentro do modelo bíblico de Atos. Em 1930, os missionários entregaram as igrejas do Norte e Nordeste aos cuidados dos obreiros nacionais, passando a desenvolver suas atividades no Sul e no Sudeste. Pelo escritos de Gunnar Vingren, vemos que o intuito dos missionários era o de criar um sistema congregacional com uma comunhão fraternal entre todas as igrejas locais, o que, entretanto, não se concretizou, já que Gunnar Vingren retornou à Suécia em 1932 e Daniel Berg e os demais missionários que aqui já estavam se abstiveram de  opinar sobre a questão.
OBS: “…’Os missionários no Brasil estão, quando se trata de assunto de organização, inteiramente no mesmo ponto de vista que as igrejas livres da Suécia. Todos expuseram a sua perfeita aprovação sobre o pensamento bíblico de igrejas locais livres e independentes. É certo que entre as quais deve haver colaboração espiritual, mas sem seguir esse modelo do qual os missionários tinham sido acusados de seguir, e até de praticar uma organização eclesiástica em nível nacional’. Dessa forma podemos avaliar a enorme e grandíssima importância que teve essa conferência em Natal, e suas consequências para o movimento pentecostal no Brasil, pois ali se traçaram linhas bem claras, e fronteiras bem firmes entre o que é humano e o que é divino; entre o espiritual e o carnal. Os irmãos tiveram, assim, a oportunidade de apresentar claramente o princípio da igreja local livre e independente no seu plano divino já traçado por Deus, e puderam também pôr em prática esta mesma doutrina.…” (VINGREN, Ivar. Diário do pioneiro Gunnar Vingren. 5.ed., p.178) (as palavras em aspas simples são do próprio Gunnar Vingren).

- Estas igrejas locais abertas pelos missionários deram origem aos “ministérios”, criação já dos obreiros nacionais, reuniões de igrejas sob o comando deste líder constituído pelos missionários que, a princípio, era constituído por este obreiro, investido pelos missionários, e pelos seus auxiliares, via de regra, obreiros locais (presbíteros, diáconos e os “evangelistas autorizados”).

- Estes “ministérios”, ante a dimensão continental do Brasil, passaram a ser verdadeiras “dioceses”, visto que seus líderes, dentro da natural cultura patriarcal vigente no Brasil, passaram a governar suas igrejas locais de forma “monárquica” e não só as igrejas locais sobre os quais haviam sido constituídos pelos missionários, mas todas as que se estabeleciam a partir delas, com o trabalho de evangelização. Esta situação se consolidou em 1930 quando, na primeira Convenção das Assembleias de Deus, em Natal/RN, decidiu-se que, na região norte, a obra missionária passaria a ser dirigida apenas por obreiros nacionais.
OBS: Notemos que, apesar de a primeira convenção ter se realizado em 1930, a CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil) somente se tornaria pessoa jurídica em 1946 e, mesmo assim, preservando a autonomia das Assembleias de Deus existentes em todo o país, tanto que era objetivo da CGADB, “…a aproximação das Assembleias de Deus no país: “Nenhuma Assembleia de Deus poderá viver isoladamente, sendo obrigatória a interligação das Assembleias de Deus no Brasil, com a finalidade de determinar a responsabilidade perante a Convenção Geral e perante as autoridades constituídas”.…” (História da CGADB. Disponível em: http://cgadb.org.br/home/index.php?option=com_content&task=view&id=13&Itemid=27 Acesso em 29 jan. 2011). A obrigação de interligação não significava qualquer poder da CGADB sobre as igrejas, tanto que, em 1989, o “Ministério de Madureira” formou a sua própria convenção, a Convenção Nacional de Ministros das Assembleias de Deus do Ministério de Madureira (CONAMAD), gerando a primeira grande divisão das Assembleias de Deus em nosso país.

- No entanto, quando tudo parecia que se estava adotando nas Assembleias de Deus o sistema episcopal, não houve qualquer disciplina a respeito de demarcação territorial dos “ministérios”, característica fundamental deste sistema. Os “ministérios” foram estabelecidos em torno das pessoas e das suas respectivas igrejas locais, vinculando-se a eles todos os “trabalhos” que fossem “abertos” por pessoas ligadas a estas lideranças, havendo, entre os “ministérios”, tão somente um respeito mútuo, baseado na amizade e simpatia dos líderes entre si.

- O resultado foi trágico: a construção de estruturas em torno de pessoas fez com que houvesse uma fragmentação ao longo dos anos, que resultou neste ambiente de divisões e multiplicidade de direções que muito compromete a disciplina e que contribuiu sobremaneira para a crise de identidade que vive nossa denominação em seu centenário, o que se agravou com a adoção de nossa nomenclatura, que não era patenteada, por outros movimentos que nada tinham que ver com a nossa história.

- A tentativa de organização da situação, através de criação e estruturação de “convenções estaduais de ministros”, onde se criassem mecanismos de controle desta expansão e de uma certa demarcação territorial, não conseguiu reverter o quadro, antes, aliás, acabou por gerar ainda mais divisões e uma distinção entre “ministros” (pastores e evangelistas, que são obreiros reconhecidos nacionalmente), “oficiais” (presbíteros, diáconos e cooperadores ou auxiliares, que são obreiros reconhecidos apenas na igreja local) e os demais crentes, complicando um pouco mais a situação.

- Apesar da irreversibilidade da situação, ainda mais quando nos aproximamos do término da dispensação da graça, em que a apostasia é manifesta, urge voltarmos aos princípios bíblicos, buscando através daquilo que nos mostra Atos dos Apóstolos, construir, no tempo que nos resta ainda, fazer um serviço eficaz e eficiente para a expansão do reino de Deus. Que Deus nos dê graça para tanto.

                                                                  Caramuru Afonso Francisco



Um comentário:

Hermes C. Fernandes disse...

Olá Artur!

Grata surpresa encontrar seu blog. Parabéns pela sua iniciativa, proposta e conteúdo. Quero lhe encorajar a prosseguir, e por isso mesmo, já estou seguindo.

Deixo aqui o meu convite para que conheça o meu blog, e se desejar retribuir seguindo-o, ficarei muito honrado.

www.hermesfernandes.com

Te espero lá!

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