28.10.11

A INJUSTIÇA SOCIAL COMO OBSTÁCULO À OBRA DO SENHOR


IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS - MINISTÉRIO DO BELÉM

ESTUDO DA PALAVRA DE DEUS PARA OS AMIGOS E PROFESSORES DA ESCOLA DOMINICAL (EPAPED)
BELÉM- SEDE
QUARTO TRIMESTRE DE 2011

TEMA –  Neemias – integridade e coragem em tempos de crise


COMENTARISTA :  Elinaldo Renovato de Lima



APÊNDICE Nº 1 –  A INJUSTIÇA SOCIAL COMO OBSTÁCULO À OBRA DO SENHOR
                           
Texto áureo
“ Disse mais: Não é bom o que fazeis: porventura não devíeis andar no temor do nosso Deus, por causa do opróbrio dos gentios, os nossos inimigos? ” (Ne.6:9)


INTRODUÇÃO
- Em complemento ao estudo deste trimestre, analisaremos o capítulo 5 de Neemias, que não foi objeto de lição específica.

- No capítulo 5 de Neemias, vemos que não há como se realizar convenientemente a obra de Deus se não houver justiça social.

I – UM OBSTÁCULO À OBRA DA REEDIFICAÇÃO SURGE NOS RELACIONAMENTOS SOCIAIS ENTRE OS JUDEUS

- Neemias estava a relatar a grande oposição que lhe faziam Sambalate, Tobias e Gesem e como, em virtude dela, tiveram os edificadores de trabalhar com uma mão nas ferramentas e outra nas armas. Eram, verdadeiramente, “tempos angustiosos”, como, aliás, já profetizara a respeito o profeta Daniel (Dn.9:25).

- Em meio a esta aflição por causa da ameaça de um ataque iminente do exército de Samaria, exsurge um novo obstáculo à obra, surpreendente até, visto que não nascido do exterior, não proveniente do inimigo, mas, sim, do próprio interior do povo de Judá. Este obstáculo como que interrompe a narrativa da oposição dos adversários e passa a ser relatado por Neemias.

- “Foi, porém, grande o clamor do povo e de suas mulheres, contra os judeus, seus irmãos” (Ne.5:1). No meio da aflição que se vivia por causa do perigo externo, aparece uma murmuração entre os judeus, um desentendimento entre os próprios compatriotas.

- Por que havia este clamor? O próprio Neemias responde: porque estava ocorrendo uma desmedida exploração dos mais pobres pelos mais ricos que, diante da fome que havia na terra, aproveitaram a ocasião para se enriquecer ainda mais, gerando um quadro de grande servidão por causa das dívidas contraídas pelos mais pobres para que pudessem sobreviver, alimentar-se do necessário.

- O quadro em Judá era, como descrito pelos judeus quando se encontraram em Neemias, era de grande miséria e de desprezo (Ne.1:3). Neemias tinha consciência disso desde quando passou a orar a Deus e pôde vê-lo com seus próprios olhos ao chegar a Jerusalém. No entanto, este clamor lhe revelava um fator que até então lhe passara despercebido: a grande miséria não era só resultado da falta de recursos, da inexistência de uma Jerusalém reedificada e segura, mas, também, consequência de uma injustiça social.

- Diante da situação de escassez de recursos, os pobres, para poderem se alimentar, acabaram se endividando com os mais ricos, que, sem dó nem piedade, aproveitaram-se da ocasião para tomarem as terras dos seus compatriotas, como também de reduzi-los à escravidão.

- Como se sabe, a única forma pela qual se permitia a escravidão de judeus por judeus na lei de Moisés era em virtude das dívidas. Não tendo com que pagar as dívidas, os devedores eram escravizados pelo prazo máximo de seis anos (Lv.21:1,2).

- Ante a situação difícil em que os judeus se encontravam, em pouco tempo quase todo o povo fora escravizado por uns poucos que, detentores dos recursos, não tiveram outro objetivo senão se aproveitar da ocasião para seu próprio enriquecimento, sem exercer a misericórdia que se exigia de um povo que servia ao Senhor, Ele próprio misericordioso.

- A situação era de calamidade social e, com este clamor, Neemias percebeu claramente que não poderia executar a obra da reedificação dos muros e portas de Jerusalém, visto que tal obra exigia a participação de todos, a união de todo o povo, algo imprescindível para se realizar a vontade de Deus. Havia ele conclamado todo o povo à obra e ali estava o povo todo a trabalhar, apesar das angústias vividas, mas este clamor representava um enorme fator de risco para a continuidade da obra.

- De igual maneira, não podemos fazer a obra de Deus se não houver comunhão na Igreja. A Igreja tem de se caracterizar pela comunhão, como nos deixa claro a descrição que Lucas faz da igreja primitiva em Jerusalém em At.2:42-47.

- A comunhão dá-se não somente pela crença em comum na pessoa de Jesus Cristo, mas também no compartilhamento tanto material quanto espiritual dos crentes. “Eles tinham tudo em comum”, relata o livro de Atos, o que importava, inclusive, no compartilhamento do necessário para a sobrevivência. Quando isto teve uma certa defasagem, vemos o surgimento da murmuração no capítulo 6 de Atos, o que levou os apóstolos à instituição do diaconato, para que não houvesse a persistência da carência ainda que em um segmento da comunidade.

- Não há como se realizar a contento a obra do Senhor se os relacionamentos sociais dos salvos não forem transformados pelo Evangelho. Por isso, o Senhor Jesus nos ensinou que devemos amar uns aos outros como Ele nos amou, amor que não envolveu apenas o aspecto da salvação, mas também a tomada de atitudes concretas para minorar o sofrimento e a carência do povo, inclusive no que respeita aos aspectos terrenos de nossa existência.

- Nos dias hodiernos em que vivemos, de crescente desigualdade social apesar do progresso da tecnologia, a Igreja não poderá realizar a obra do Senhor se transferir para o seu interior o mesmo quadro de injustiça social que o mundo está a viver. Muitos, a exemplo do que ocorria nos dias de Neemias, estão se aproveitando de sua posição privilegiada na sociedade e, sem dó nem piedade, estão a se enriquecer às custas do próximo e, o que é mais grave, às custas dos próprios irmãos.

- É triste verificarmos que, assim como ocorre no mundo, não são poucos os que fazem da Igreja um local para acumulação de riquezas, para o seu próprio enriquecimento, gerando as mesmas murmurações que foram ouvidas por Neemias junto ao povo e às suas mulheres que, por causa do pão de cada dia, estavam em situação deplorável, com a perda tanto de seu patrimônio quanto de seus familiares, que já se achavam escravizados pelos mais ricos.

- A situação de extrema desigualdade social é contrária à vontade do Senhor. Quando do estabelecimento da lei, o Senhor já sinalizara para o povo de Israel que, embora sempre haverá diferença de rendimentos entre os homens, pois a pobreza é inafastável da realidade humana (Dt.15:11), não se poderia admitir uma diferença gritante entre os diversos segmentos da sociedade e, mais ainda, que os mais pobres ficassem a viver em extrema escassez a ponto de lhes colocar em risco a sua dignidade.

- Tanto assim é que o Senhor mandou criar mecanismos que impedia o crescimento ilimitado da desigualdade social entre os israelitas, tais como a limitação da escravidão de um israelita por outro a seis anos (Ex.21:1,2); o ano sabático, onde o descanso da terra era acompanhado da liberdade de qualquer um colher do fruto da terra naquele ano (Ex.23:10,11); a respiga, que permitia que os necessitados colhessem livremente o que caía na hora da colheita (Lv.19:9; Dt.24:19-21) e, por fim, o ano do jubileu, quando as propriedades adquiridas eram devolvidas aos seus donos primitivos, o que, a um só tempo, impedia a concentração de renda e se criava um instrumento para se evitar o aumento desmedido dos preços (Lv.25:10-15).

- Como se não bastasse isto, verificamos, ao longo da história sagrada, que as ocasiões de intensa desigualdade social que se encontraram em Israel eram precisamente períodos de ocaso espiritual, a nos apontar que o distanciamento da vontade de Deus gera um quadro de injustiça social. É a situação que vemos no final do reinado de Salomão, quando a idolatria havia retornado à sociedade (I Rs.12:4); no reinado de Zedequias, o último rei de Judá, quando a apostasia chegou ao seu grau máximo (Jr.34:8-11).

- O Senhor, por fim, dá-nos demonstração inequívoca de seu desagrado com este estado de injustiça social quando levanta profetas para denunciar esta situação, como vemos, por exemplo, nos ministérios de Amós (Am.4, 5, 8), Miqueias (Mq.2,3) e Jeremias (Jr.34:12-22).

- Diante da situação angustiante que se estava a passar na reedificação dos muros e das portas de Jerusalém, o povo não mais aguentou e começou a clamar. Ao povo, diante da situação de miséria em que se encontrava, situação que não tinha qualquer perspectiva de modificação, não tinha outra coisa a se falar senão clamar. Este recurso não é condenado por Deus. Pelo contrário, a Bíblia nos fala que o Senhor atenta para o clamor do pobre e do necessitado (Ex.2:23; 3:7,9; 22:22,23; Jó 34:28; Sl.9:12).
- Deus não quer que o pobre clame somente a Ele. Também é legítimo que o pobre clame aos demais homens, sendo certo que se os homens não o ouvirem, também não serão ouvidos por Deus (Pv.21:13).

- O fato é que a situação era tão aflitiva que o povo e as suas mulheres começaram a clamar não somente a Deus mas, também, contra os judeus, seus irmãos, a nos revelar que, quando há insensibilidade por parte dos mais aquinhoados em relação ao clamor dos pobres, temos, também, um incentivo e estímulo ao desespero, o que poderá levar, inclusive, os pobres a pecar, deixando de simplesmente clamar para começar a murmurar. Este pecado não será, porém, apenas dos pobres, mas também dos que foram responsáveis por esta situação. Temos consciência disso?

- A situação, entretanto, não parece ter sido percebida por Neemias logo de início, pois foi preciso que o povo clamasse insistentemente até o ponto em que “Neemias se enfadou” (Ne.5:6). É preciso ter perseverança, mesmo no clamor por causa da necessidade e da carência. Caso o povo e as suas mulheres tivessem, diante de uma aparente indiferença inicial de Neemias, cessado de clamar, não teria havido qualquer modificação na situação adversa que estavam a passar.

- O clamor do pobre e do necessitado tem de ser ouvido pela Igreja que, não só no seu interior, mas também na sociedade, deve fazer com que haja uma perseverança, uma persistência neste clamor, até que haja o “enfado” de quem pode modificar a situação. Espelhemo-nos no exemplo da viúva da parábola do juiz iníquo (Lc.18:1-8) que, apesar de saber que o juiz não queria fazer justiça a pessoa alguma, não desanimou e perseverou em sua demanda, até que conseguiu que a justiça fosse feita.

- Qual é a nossa situação diante da grande injustiça social que existe tanto dentro da Igreja quanto na sociedade em que vivemos? Será que somos como o juiz iníquo? Sensibilizemo-nos com o clamor do pobre e do aflito para que possamos também ser ouvidos pelo Senhor e pelos homens.

II – NEEMIAS ATENDE AO CLAMOR DOS NECESSITADOS

- Neemias era um homem de Deus e, embora tenha resistido um pouco ao clamor do povo e de suas mulheres, “enfadou-se”. Este enfado foi uma bênção, visto que, por primeiro, foi uma conversão interior. O próprio Neemias afirma que “considerou consigo mesmo no seu coração”. Coisa boa é quando nos sensibilizamos por causa do clamor do pobre e do necessitado, quando sentimos compaixão pelo próximo, quando nos deixamos sensibilizar pela situação de injustiça por que passa a humanidade.

- Neemias, primeiro, verificou se as reivindicações apresentadas estavam de acordo com a Palavra do Senhor. Sentiu, como homem de Deus que era, que o clamor era justo e legítimo e que a forma pela qual a elite judaica estava vivendo não correspondia à vontade de Deus. Não havendo a observância da vontade de Deus nos relacionamentos sociais, jamais o Deus do céu faria prosperar a obra de reedificação dos muros e portas de Jerusalém.

- Neemias também ponderou que de nada adiantaria restabelecer Jerusalém como uma cidade, com muros, portas e segurança, caso não houvesse justiça entre os judeus, pois a estrutura social não existe por si só, mas, sim, para o homem, o que, aliás, o Senhor Jesus ensinaria ao dizer que o sábado foi feito para o homem e não o homem, para o sábado (Mc.2:27).

- Neemias, após ter entendido que o clamor era justo e legítimo e, portanto, para ele estava a atentar o Senhor, tomou uma atitude concreta e corajosa: pelejou com os nobres e com os magistrados, mostrando-lhes que eles haviam praticado usura, tendo, inclusive, ajuntado um grande ajuntamento contra eles (Ne.5:7).

- Neemias, em suas ponderações, observou claramente que este enriquecimento desmedido em detrimento dos menos favorecidos era usura, o que era expressamente vedado pela lei (Ex.22:25; Lv.25:36,37; Dt.23:19,20). “Usura” é a cobrança de juros excessivos sobre o empréstimo dado a alguém, uma verdadeira transferência do patrimônio para alguém sem que tenha havido qualquer trabalho por parte daquele que enriquece.

- A quem Neemias então deveria se dirigir? Aos que haviam se enriquecido indevidamente, ou seja, os nobres e magistrados, à elite judaica. Assim, afirma que “pelejou” com eles, a mostrar que não foi na primeira ocasião que conseguiu convencer os poderosos da sociedade de então a ceder às reivindicações dos menos favorecidos.

- Neemias chegou mesmo a ajuntar o povo num ajuntamento contra os nobres e os magistrados, a indicar que a resistência era grande para que se alterasse a situação. Não nos iludamos, portanto, quando empunhamos a bandeira da justiça social, da diminuição das desigualdades, seja no interior da Igreja, seja na sociedade, pois a resistência sempre será grande, mas perseveremos, porquanto estaremos a fazer a vontade de Deus.

- Feito o ajuntamento, um ajuntamento pacífico e ordeiro, determinado pela própria autoridade [o próprio Neemias, que era o governador], Neemias denunciou a injustiça cometida, lembrando aos nobres e magistrados que todo o povo havia sido resgatado do cativeiro, que todos haviam readquirido a liberdade, por uma operação divina, e, portanto, como agora os próprios judeus estariam a escravizar os seus irmãos? Como dizer que se estava lutando pela manutenção da liberdade frente aos povos vizinhos, que queriam escravizá-los, se os próprios judeus escravizavam seus irmãos? (Ne.5:8).

- A injustiça social é um reflexo do pecado que campeia na humanidade, pois todo pecado é iniquidade, ou seja, injustiça (I Jo.3:4). Assim, consentir com a injustiça social, tirar proveito dela é consentir com o pecado e é digno de morte tanto quem o pratica, quanto quem consente com a sua prática (Rm.1:32).

- A injustiça social leva os homens à uma situação tanto de miséria quanto de suntuosidade que compromete a sua própria dignidade, tornando-se um fator de incentivo para a prática do pecado. O sábio Agur já ensinava que a situação de extrema injustiça social é uma janela escancarada para o pecado, seja para o pobre, que se tornará um furtador; seja para o rico, que se tornará um vaidoso e soberbo (Pv.30:8,9).

- O papel do governante, como se vê, é o de promover, de forma ordeira, justa e legítima, a cessação das atividades que geram a injustiça social, ficando sempre ao lado dos menos favorecidos, sem que, para tanto, venha a destruir os mais abastados. Faz-se preciso denunciar a injustiça e conscientizar os mais abastados a tomar medidas efetivas para que tal situação deixe de existir, diminuindo o abismo entre os estratos extremos da sociedade.

- Neemias, em sua argumentação, não se utilizou de qualquer filosofia, ideologia ou doutrina humanas. Como homem de Deus, mostrou claramente aos nobres e magistrados que era necessário “andar no temor do nosso Deus, por causa do opróbrio dos gentios, os nossos inimigos” (Ne.5:9). Sem o temor de Deus, não há como se realizar justiça social. Sem que estejamos obedientes ao Senhor, não há como vivermos de acordo com a Sua vontade no que respeita aos nossos relacionamentos sociais.

- Por isso, a melhor forma pela qual a Igreja tem para debelar a extrema desigualdade social é através de uma vida de temor a Deus, de estrita obediência à Palavra de Deus. Não é papel da Igreja assumir filosofias, doutrinas ou pensamentos humanos para tentar criar condições para uma melhor vida sobre a face da Terra, mas lutar e pelejar para que, havendo temor a Deus, esta melhora se realize pela concretização do amor ao próximo, da vontade do Senhor.

- A presença da injustiça social no meio da Igreja, como se tem verificada cada vez mais entre nós, é mais uma demonstração de que está a faltar o temor a Deus entre os que cristãos se dizem ser. O temor a Deus não se apresenta apenas em uma maior devoção individual, mas, também, num relacionamento fraterno e amoroso para com o irmão, na ajuda aos necessitados, a começar pelos de nossa igreja local.

- Neemias não foi um político demagogo, que simplesmente fez discursos e promessas ao povo que clamava, sem tomar qualquer iniciativa concreta. Não só assumiu a luta contra os nobres e magistrados, como fez o ajuntamento de todos contra eles, mas também confessou e deixou as suas próprias práticas usurárias, pois também ele, seus irmãos e seus moços haviam emprestado dinheiro para os mais necessitados. Num gesto exemplar, Neemias abandonou o ganho dos juros destes empréstimos, fazendo antes de exigir que os outros fizessem (Ne.5:9).

- Neemias, então, após dar o exemplo, determinou que os nobres e magistrados restituíssem aos pobres as suas terras, as suas casas, como também a taxa que estavam a cobrar de juros pelo dinheiro, trigo, mosto e azeite que exigiam deles, taxa que correspondia ao “centésimo”, ou seja, 1% (um por cento) (Ne.5:10,11), taxa bem inferior ao que vemos em nosso país, que é conhecido como “o paraíso dos juros” em nosso planeta.

- Neemias foi vitorioso e a elite judaica também se sensibilizou com o clamor dos pobres e necessitados, restituindo o que haviam tomado dos mais necessitados, como também deixando de exigir os juros que estavam a cobrar, compromisso que foi solenemente firmado, tendo, inclusive, havido juramento perante os sacerdotes (Ne.5:12), bem como o gesto simbólico do sacudir do regaço (Ne.5:13).

- A consequência de se ter conquistado a justiça social, com o fim da desigualdade social gritante, foi o louvor a Deus (Ne.5:13). A justiça social é uma boa obra e, com ela, o nome do Senhor é glorificado. Que bom será quando isto se der no interior de cada igreja local!



III – A JUSTIÇA SOCIAL ATINGE A ADMINISTRAÇÃO DE JUDÁ

- O capítulo 5 de Neemias, contudo, não termina nesta redenção dos relacionamentos sociais entre pobres e ricos.

- Neemias como que explica como havia sido bem sucedida a sua modificação do quadro da injustiça social. Ele tinha credibilidade pois, diante do quadro de grande miséria e desprezo que vivia o seu povo, não se prevaleceu da sua condição de governador para se enriquecer.

- Neemias dá-nos conta de que, desde o dia em que foi nomeado governador na terra de Judá pelo rei Artaxerxes até o fim do seu primeiro mandato, que foi de doze anos (desde o ano vinte até o ano trinta e dois daquele rei – Ne.5:14), Neemias nem seus irmãos comerão do “pão do governador”, ou seja, não receberam os salários a que fariam jus pelo exercício desta função.

- Esta expressão de Neemias mostra-nos que, embora não seja pecaminoso que um governante seja assalariado, todo governante precisa ter a prudência e a sensibilidade para que este assalariamento não seja um escândalo, uma ocasião para que se tenha murmuração e revolta em meio à população.

- O apóstolo Paulo também procedeu do mesmo modo em Tessalônica, quando, para que não houvesse escândalo entre os que se evangelizavam ali, trabalhou noite e dia para não ser pesado aos irmãos e, com isto, ter credibilidade e legitimidade para pregar o Evangelho (I Ts.2:9). É o próprio Paulo quem diz que digno é o obreiro do seu salário (I Tm.5:18), ensino, aliás, que é do próprio Senhor Jesus (Lc.10:7). Todavia, este ganho deve ser obtido sem escândalo, sem que isto seja um tropeço para a obra de Deus.

- Neemias, mesmo tendo caído na “tentação da usura”, desde quando chegou a Jerusalém, ao verificar a situação de grande miséria e desprezo que vivia o povo abriu mão do “pão do governador”, num gesto de sensibilidade e de compaixão para com o próximo. Sem dúvida alguma, este seu gesto foi um dos fatores para que tivesse autoridade para conseguir demover a grande injustiça social então reinante. Como afirma o próprio Neemias: “…nem por isso exigi o pão do governador, porquanto a servidão deste povo era grande” (Ne.5:18 “in fine”).

- Muito da injustiça social em nossas igrejas locais se deve à falta de autoridade que muitos de nossos líderes tem tido precisamente porque não só não abrem mão do “pão do governador”, como ainda, a exemplo de nossas autoridades civis, estão perigosamente a se acostumar a uma vida nababesca, incompatível com a situação social de nosso povo. É preciso que tenham a mesma sensibilidade que tiveram tanto Neemias quanto Paulo para que a obra de Deus não continue a ser prejudicada.

- Os antecessores de Neemias oprimiram o povo, tomaram-lhe pão e vinho e, além disso, quarenta siclos de prata, uma espécie de “imposto per capita (por cabeça) abrindo caminho para que seus moços, isto é, seus ajudantes também dominassem duramente sobre o povo, tudo fazendo porque não tinham temor a Deus, ao contrário de Neemias (Ne.5:15).

- Esta situação não nos é desconhecida. Vivemos num país em que a Administração Pública se tornou uma grande opressão para o povo, com um aumento desmedido da carga tributária sem que haja qualquer retorno para o bem-estar da população. Como se não bastasse isso, os gastos governamentais aumentam cada vez mais com salários dos governantes e de seus assessores, cada vez em maior número, sem falar no que é desviado pela corrupção para a satisfação dos “caixas dois” de campanhas dos partidos e enriquecimento dos políticos. Tudo isto é mostra de falta de temor a Deus.

- Lamentavelmente, os que cristãos se dizem ser que ocupam tais posições, em vez de se comportarem como Neemias, estão a copiar os antecessores de Neemias, vivendo da mesma maneira que os integrantes da Administração que não servem a Deus, mostrando, com isso, que não têm também temor a Deus. Devemos observar estas condutas e, na hora das eleições, não nos deixar levar pela simples afirmação de que A ou B é “crente”, mas verificar se, no exercício das funções públicas, agiram como “crentes” ou se tão somente estão a repetir as mesmas atitudes deletérias e reprováveis dos incrédulos.
OBS: É muito triste constatar, por exemplo, que recente levantamento feito pelo jornal paulistano “A Folha de São Paulo” o campeão de gastos com todas as mordomias existentes na Câmara dos Deputados é um deputado que cristão se diz ser e que apenas um deputado federal, que não é cristão, tenha abrido mão dos abusivos e excessivos privilégios dos parlamentares, enquanto que toda a “bancada evangélica” tenha preferido se aproveitar da situação. Ah, Senhor, que tenhamos políticos como Neemias em nosso país!

- O que ocorre, porém, é que esta opressão não se circunscreve apenas à Administração Pública. As igrejas locais, também, em suas estruturas administrativas, estão cada vez mais parecidas com o Estado. Há, também, muita opressão sobre o povo, com uma crescente arrecadação que não se converte em benefício da obra de Deus, havendo também muitos “moços” que estão a dominar o povo, vivendo como parasitas em torno dos cofres das igrejas. Há muitos “mercenários” no meio do povo de Deus. Torna-se necessário e urgente que o temor a Deus volte a prevalecer na administração de nossas igrejas.

- Neemias, além da sensibilidade para abrir mão do “pão do governador”, também tomou a decisão de participar da obra de reparação, dando o exemplo, não querendo ser um “mandão”, mas um “líder servidor”, assim como o Senhor Jesus nos ensina, pois, em termo se Igreja, o maior deve servir o menor e não o contrário, como ocorre no mundo.

- Neemias, também, além de se mostrar um líder servidor, que não se isolava dos seus liderados, também tomou o cuidado de não ter um acréscimo patrimonial que pudesse causar escândalo ao povo. Fez questão de não comprar terra alguma, a fim de que não se criasse suspeita a respeito de sua honestidade.

- O aumento patrimonial não é um mal em si. Deus abençoa os Seus servos e pode, sim, fazer com que alguém venha a enriquecer. No entanto, para quem está na liderança, seja na sociedade, seja na igreja, todo cuidado é pouco e se deve viver de maneira tal que não haja qualquer motivo de suspeita. É bom lembrarmos que, segundo a legislação brasileira, o aumento patrimonial injustificado por si só já se constitui em ato de improbidade administrativa, ou seja, numa demonstração de desonestidade. Ora, se assim é a lei dos homens, como deve comportar-se o salvo, cuja justiça deve exceder a dos escribas e fariseus (Mt.5:20)?
OBS: Assim diz o artigo 9º da lei 8.429/1992: “Constitui ato de improbidade administrativa importando enriquecimento ilícito auferir qualquer tipo de vantagem patrimonial indevida em razão do exercício de cargo, mandato, função, emprego ou atividade nas entidades mencionadas no art.1º desta lei e, notadamente: (…) VII – adquirir, para si ou para outrem, no exercício de mandato, cargo, emprego ou função pública, bens de qualquer natureza cujo valor seja desproporcional à evolução do patrimônio ou à renda do agente público;”

- Neemias não comprou qualquer terra para não dar motivo à murmuração nem que tal exemplo pudesse fomentar o recrudescimento da injustiça social. Assim devem também fazer os líderes no meio do povo de Deus, agindo de forma transparente para que toda e qualquer aquisição não seja motivo de desconfiança ou suspeita. A falta de transparência, entretanto, é mais uma das mazelas de nossos dias hodiernos.

- Além de não adquirir qualquer propriedade, Neemias ainda fez com que seus moços também se ajuntassem à obra. Neemias também não quis criar uma “casta de privilegiados” em torno de si, não quis que seus “assessores” usassem da proximidade com o líder para se fazerem “chefetes” no meio do povo, o que, também, infelizmente, tem ocorrido no meio das igrejas locais. Não havia, nos dias de Neemias, lugar para “parasitas”.

- Neemias não só mandava os seus moços trabalharem, mas também se incumbia de, às suas expensas, providenciar o sustento deles e dos cento e cinquenta homens dos judeus e magistrados, além daqueles que vinham aos judeus dentre as gentes que estavam à sua roda. Todos os dias, era preparado um boi e seis ovelhas escolhidas, além de aves, sendo que, de dez em dez dias, era providenciado muitíssimo vinho. Neemias cuidava dos seus, mas nem por isso exigia o “pão do governador”.

- Temos aqui que não se está a defender que os líderes passem necessidades ou vivam indignamente. Têm eles, como já dissemos, o direito ao salário para que possam viver com dignidade e bem cuidar dos seus, pois também são pais de família. De igual maneira, têm o mesmo direito aqueles que estão ajudando os líderes. Todavia, tudo deve ser feito com transparência e sem qualquer intuito de enriquecimento. Neemias era tão transparente que deixou registrado o quanto se gastava com alimentação dia após dia. Precisamos desta mesma transparência no meio do povo de Deus.

- Por que Neemias agiu desta maneira? Primeiro, como vimos, porque tinha temor a Deus. Segundo, porque queria o bem do seu povo. Por isso, ao prestar contas de sua administração, termina com uma oração ao Senhor: “Lembra-Te de mim para bem, ó meu Deu, e de tudo quanto fiz a este povo” (Ne.5:19). Será que com a administração que temos feito dos recursos do povo de Deus, podemos ter convicção de que Deus Se lembra de nós para nosso bem?

                                                        Caramuru Afonso Francisco
PORTAL ESCOLA DOMINICAL
QUARTO TRIMESTRE DE 2011

TEMA –  Neemias – integridade e coragem em tempos de crise

COMENTARISTA :  Elinaldo Renovato de Lima

APÊNDICE Nº 1 –  A INJUSTIÇA SOCIAL COMO OBSTÁCULO À OBRA DO SENHOR
1º SLIDE                               
Texto áureo
“ Disse mais: Não é bom o que fazeis: porventura não devíeis andar no temor do nosso Deus, por causa do opróbrio dos gentios, os nossos inimigos? ” (Ne.6:9)
2º SLIDE  INTRODUÇÃO
- Em complemento ao estudo deste trimestre, analisaremos o capítulo 5 de Neemias, que não foi objeto de lição específica.
- No capítulo 5 de Neemias, vemos que não há como se realizar convenientemente a obra de Deus se não houver justiça social.
3º SLIDE  I – UM OBSTÁCULO À OBRA DA REEDIFICAÇÃO SURGE NOS RELACIONAMENTOS SOCIAIS ENTRE OS JUDEUS
- Em meio a aflição por causa da ameaça de um ataque iminente do exército de Samaria, exsurge um novo obstáculo à obra de reedificação de Jerusalém: o clamor do povo e de suas mulheres contra os judeus, seus irmãos (Ne.5:1).
- Por que havia este clamor? Porque estava ocorrendo uma desmedida exploração dos mais pobres pelos mais ricos.
4º SLIDE
- Diante da situação de escassez de recursos, os pobres, para poderem se alimentar, acabaram se endividando com os mais ricos, que, sem dó nem piedade, aproveitaram-se da ocasião para tomarem as terras dos seus compatriotas, como também reduzi-los à escravidão.
- A situação era de calamidade social e, com este clamor, Neemias percebeu claramente que não poderia executar a obra da reedificação dos muros e portas de Jerusalém se esta situação se mantivesse.
5º SLIDE
- Não há como se realizar a contento a obra do Senhor se os relacionamentos sociais dos salvos não forem transformados pelo Evangelho. A situação de extrema desigualdade social é contrária à vontade do Senhor, já que:
a) quando do estabelecimento da lei, o Senhor mandou criar mecanismos que impediam o crescimento ilimitado da desigualdade social entre os israelitas: limitação da escravidão de um israelita por outro a seis anos (Ex.21:1,2); o ano sabático (Ex.23:10,11); a respiga (Lv.19:9; Dt.24:19-21) e, por fim, o ano do jubileu (Lv.25:10-15).
b) as ocasiões de intensa desigualdade social em Israel eram precisamente períodos de ocaso espiritual (I Rs.12:4; Jr.34:8-11).
c) o Senhor levantou profetas para denunciar a injustiça social  (Am.4, 5, 8; Mq.2,3; Jr.34:12-22).
6º SLIDE
- Diante da situação angustiante que se estava a passar na reedificação dos muros e das portas de Jerusalém, o povo não mais aguentou e começou a clamar.
- Este recurso não é condenado por Deus. Pelo contrário, a Bíblia nos fala que o Senhor atenta para o clamor do pobre e do necessitado (Ex.2:23; 3:7,9; 22:22,23; Jó 34:28; Sl.9:12).
7º SLIDE
- Deus não quer que o pobre clame somente a Ele. Também é legítimo que o pobre clame aos demais homens, sendo certo que se os homens não o ouvirem, também não serão ouvidos por Deus (Pv.21:13).
- A situação, entretanto, não parece ter sido percebida por Neemias logo de início, pois foi preciso que o povo clamasse insistentemente até o ponto em que “Neemias se enfadou” (Ne.5:6).
8º SLIDE  II – NEEMIAS ATENDE AO CLAMOR DOS NECESSITADOS
- Neemias era um homem de Deus e, embora tenha resistido um pouco ao clamor do povo e de suas mulheres, “enfadou-se”.
- Este enfado foi uma bênção, visto que, por primeiro, foi uma conversão interior. O próprio Neemias afirma que “considerou consigo mesmo no seu coração”.
9º SLIDE
- Neemias, após ter entendido que o clamor era justo e legítimo e, portanto, para ele estava a atentar o Senhor, tomou uma atitude concreta e corajosa: pelejou com os nobres e com os magistrados, mostrando-lhes que eles haviam praticado usura, tendo, inclusive, ajuntado um grande ajuntamento contra eles (Ne.5:7).
- Neemias, em suas ponderações, observou claramente que este enriquecimento desmedido em detrimento dos menos favorecidos era usura, o que era expressamente vedado pela lei (Ex.22:25; Lv.25:36,37; Dt.23:19,20).
10º SLIDE
- A quem Neemias então deveria se dirigir? Aos que haviam se enriquecido indevidamente, ou seja, os nobres e magistrados, à elite judaica. Assim, afirma que “pelejou” com eles.
- Neemias chegou mesmo a ajuntar o povo num ajuntamento contra os nobres e os magistrados, a indicar que a resistência era grande para que se alterasse a situação.
11º SLIDE
- Feito o ajuntamento, um ajuntamento pacífico e ordeiro, determinado pela própria autoridade [o próprio Neemias, que era o governador], Neemias denunciou a injustiça cometida.
- A injustiça social é um reflexo do pecado que campeia na humanidade, pois todo pecado é iniquidade, ou seja, injustiça (I Jo.3:4). Assim, consentir com a injustiça social, tirar proveito dela é consentir com o pecado e é digno de morte tanto quem o pratica, quanto quem consente com a sua prática (Rm.1:32).
12º SLIDE
- O papel do governante, como se vê, é o de promover, de forma ordeira, justa e legítima, a cessação das atividades que geram a injustiça social, ficando sempre ao lado dos menos favorecidos, sem que, para tanto, venha a destruir os mais abastados.
- Neemias, em sua argumentação, não se utilizou de qualquer filosofia, ideologia ou doutrina humanas. Como homem de Deus, mostrou claramente aos nobres e magistrados que era necessário “andar no temor do nosso Deus, por causa do opróbrio dos gentios, os nossos inimigos” (Ne.5:9).
13º SLIDE
- Neemias não foi um político demagogo, que simplesmente fez discursos e promessas ao povo que clamava, sem tomar qualquer iniciativa concreta.
- Não só assumiu a luta contra os nobres e magistrados, como fez o ajuntamento de todos contra eles, mas também confessou e deixou as suas próprias práticas usurárias, (Ne.5:9).

14º SLIDE
- Neemias, então, após dar o exemplo, determinou que os nobres e magistrados restituíssem aos pobres as suas terras, as suas casas, como também a taxa que estavam a cobrar de juros pelo dinheiro, trigo, mosto e azeite que exigiam deles.
- Neemias foi vitorioso e a elite judaica também se sensibilizou com o clamor dos pobres e necessitados, restituindo o que haviam tomado dos mais necessitados, tendo nome do Senhor sido glorificado (Ne.5:13).
15º SLIDE  III – A JUSTIÇA SOCIAL ATINGE A ADMINISTRAÇÃO DE JUDÁ
- Neemias como que explica como havia sido bem sucedida a sua modificação do quadro da injustiça social. Ele tinha credibilidade pois, diante do quadro de grande miséria e desprezo que vivia o seu povo, não se prevaleceu da sua condição de governador para se enriquecer.
- Durante os doze anos do seu primeiro mandato (Ne.5:14), Neemias nem seus irmãos comerão do “pão do governador”, ou seja, não receberam os salários a que fariam jus pelo exercício desta função.
16º SLIDE
- Esta expressão de Neemias mostra-nos que, embora não seja pecaminoso que um governante seja assalariado, todo governante precisa ter a prudência e a sensibilidade para que este assalariamento não seja um escândalo, uma ocasião para que se tenha murmuração e revolta em meio à população.
- Os antecessores de Neemias oprimiram o povo, tomaram-lhe pão e vinho e, além disso, quarenta siclos de prata, abrindo caminho para que seus moços, isto é, seus ajudantes também dominassem duramente sobre o povo, tudo fazendo porque não tinham temor a Deus, ao contrário de Neemias (Ne.5:15).
17º SLIDE
- Neemias, além da sensibilidade para abrir mão do “pão do governador”, também:
a) tomou a decisão de participar da obra de reparação, sendo um “líder servidor”;
b) tomou o cuidado de não ter um acréscimo patrimonial que pudesse causar escândalo ao povo;
c)  fez com que seus moços também se ajuntassem à obra, não permitindo “parasitas” no meio do povo;
d) foi transparente com os gastos, sustentando sua assessoria às suas expensas e às claras.

8.10.11

Jejuando pela Recompensa do Pai




Jejuando pela Recompensa do Pai

Mateus 6:16-18
“Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os outros vejam que eles estão jejuando. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa. 17 Ao jejuar, arrume o cabelo e lave o rosto, 18 para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê em secreto. E seu Pai, que vê em secreto, o recompensará” (NVI).

 

INTRODUÇÃO

Carl Lundquist foi o presidente da Faculdade e Seminário Betel por quase 30 anos. Ele morreu há cerca de quatro anos de câncer de pele. Na última década de sua vida, dedicou uma grande quantidade de energia ao estudo e promoção da devoção espiritual pessoal e das disciplinas da vida cristã.
Ele até estabeleceu o que chamou de “Evangelical Order of the Burning Heart” [Ordem Evangélica do Coração em Chamas] e começou a enviar cartas de inspiração e encorajamento. Na carta de setembro de 1989, contou a história de como começou a levar a sério o jejum.
Comecei a considerar o jejum com seriedade como disciplina espiritual como resultado da minha visita ao dr. Joon Gon Kim em Seoul, Coréia. “É verdad,” eu perguntei, “que o senhor gastou 40 dias de jejum preparatório antes da cruzada evangelística de 1980?” “Sim,” ele respondeu, “é verdade.” O dr. Kim foi o responsável pela cruzada que esperava trazer um milhão de pessoas à praça de Yoido. Mas, seis meses antes, num encontro com a polícia, o informaram que estavam revogando a permissão que lhe deram para a cruzada. A Coréia, naquele tempo, passava por uma desordem política sob a lei marcial. Os oficiais decidiram não se arriscar, tendo tantas pessoas reunidas no mesmo lugar. Então, o dr. Kim e participantes do grupo da cruzada se retiraram para um monte e ali passaram 40 dias diante de Deus, orando e jejuando pela cruzada. Depois, retornaram e se dirigiram ao posto policial. “Olha só!”, disse o oficial quando viu o dr. Kim, “nós mudamos de idéia e vocês podem fazer o seu encontro.”
Quando voltei para o hotel, refleti que eu nunca havia jejuado daquela forma. Talvez, eu nunca desejei o trabalho de Deus com a mesma intensidade… seu corpo é marcado pelos muitos jejuns de 40 dias, durante sua longa liderança do trabalho de Deus na Ásia. Por isso, também, eu nunca vi os milagres que o dr. Kim viu.
O dr. Lundquist passou a falar de um dos encontros do “Burning Heart” que ele estava dirigindo, quando viu um seminarista (quase formado) sem comer. Perguntou-o se estava tudo bem e descobriu que o jovem estava perto do final de um jejum de 21 dias, como parte de sua busca pela direção de Deus para o próximo capítulo de sua vida.
O doutor disse que nos anos seguintes de seu ministério, descobriu que um jejum modificado, uma vez por semana, era de muita ajuda na sua vida e trabalho. Escreveu em sua carta,
Em vez de levar uma hora para almoçar, uso esse tempo para me dirigir a um local de oração, geralmente numa sala próxima ao Seminário Teológico Betel. Ali, uso o meu horário de almoço em comunhão com Deus e em oração. Tenho aprendido uma dimensão muito pessoal no que Jesus declarou: “Uma comida tenho para comer, a qual vocês não conhecem.”

“QUANDO VOCÊS JEJUAREM” NÃO “SE VOCÊS JEJUAREM”

Um dos textos que moveu o dr. Lundquist naqueles anos seguintes de sua vida, será o que veremos nesta manhã, Mateus 6.16-18. O que o impressionou neste texto foram as palavras do versículo 16: “E quando jejuarem…” Ele percebeu como muitos outros que o texto não diz: “Se vocês jejuarem,” mas “quando vocês jejuarem.” Ele concluiu, como eu e a maioria dos comentaristas, que Jesus encarou o jejum como algo bom e que deveria ser praticado por seus discípulos. Isto é o que nós vemos em Mateus 9.15, quando o noivo será tomado e, então, os discípulos jejuarão.
Logo, Jesus não ensina sobre se devemos ou não jejuar. Ele toma por certo que jejuaremos e nos ensina como fazer isso, especialmente, como não fazer isso.

HIPOCRISIA: UM PERIGO NO JEJUM

Se o jejum for ser construído em nossas vidas como um modo de buscar toda a plenitude de Deus (Efésios 3.19), precisamos saber como não fazer isso. Isso incluiria orientações físicas sobre como não colocar nossos corpos em perigo, e o ensino espiritual sobre como não prejudicar nossas almas. No lado físico, desejaria passar para vocês em um pequeno papel, a avaliação de um médico que me orientou quando eu estava em Orlando, dezembro passado.

“Eles receberam sua plena recompensa”

Mas, mais importante que isso é a advertência de Jesus acerca do perigo espiritual do jejum praticado de uma forma errada. É sobre isso o nosso texto. Jesus nos adverte o que não fazer e, depois, o que fazer no lugar.
Ele nos adverte no versículo 16 a não sermos como os hipócritas: “Quando vocês jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os outros vejam que eles estão jejuando.” Os hipócritas, assim, são aqueles que praticam suas disciplinas espirituais “a fim de que os outros vejam.” Esta é a recompensa buscada por eles. Quem não se sentiria profundamente recompensado, ao ser admirado por sua disciplina, zelo ou devoção? Esta é a grande recompensa entre os homens. Poucas coisas dão mais gratificação ao nosso coração caído como ser engrandecido por nossas realizações, especialmente nossas realizações espirituais.
Jesus diz na última parte do versículo 16: “Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa.” Em outras palavras, se essa é a recompensa que você anseia no jejum, isso é o que você alcançará, mas será tudo o que alcançará. O perigo da hipocrisia é o seu completo sucesso. Ela deseja o louvor dos homens e o alcança. Mas isso é tudo.

Por que isso é hipocrisia?

Mas vamos perguntar o porquê isso é hipocrisia. Aqui você tem pessoas religiosas. Eles decidiram jejuar. Em lugar de esconderem que estão jejuando, deixam isso bem nítido. Por que isso é hipocrisia? Por que não é hipocrisia jejuar e arrumar o cabelo, lavar o rosto e não deixar que ninguém saiba que você está jejuando? A definição de hipocrisia não é fingir ser algo por fora diferente do que você é por dentro? Então, estes religiosos estão mostrando a realidade, certo? Eles são o oposto dos hipócritas. Eles jejuam e parecem pessoas que jejuam. Nenhum fingimento. Estão sendo reais! Se você jejua, pareça como alguém que jejua.
Mas, Jesus os chama de hipócritas. Por quê? Porque supõem-se que o coração que motiva o jejum seja um coração voltado para Deus. Isto é o que o jejum significa: um coração faminto por Deus. Mas a motivação do coração deles em jejuar demonstra um coração voltado para a admiração humana. Então, eles são abertos e transparentes acerca do que estão fazendo, mas esta mesma abertura e transparência é enganosa com respeito ao que experimentam. Se quisessem ser realmente transparentes, deveriam colocar uma indicação em volta de seus pescoços, dizendo: “A recompensa final que busco no jejum é o louvor dos homens.” Assim, não seriam hipócritas, mas seriam pessoas aberta e transparentemente vãs.
Deste modo, há dois perigos nos quais essas pessoas caem. Um é que estão procurando a recompensa errada no jejum, a saber, a estima de outros. Eles amam o louvor dos homens. E o outro é que escondem isso com um pretenso amor a Deus. Jejum significa amor a Deus — fome por Deus. Com suas ações, estão dizendo ter fome por Deus. Mas, por dentro, eles têm fome da admiração e aprovação de outras pessoas. Esse é o deus que os satisfaz.

UM MODO ALTERNATIVO DE JEJUM

Nos versículos 17 e 18 Jesus dá uma alternativa para este modo de jejum — o modo que ele deseja. Ele diz:
Ao jejuar, arrume o cabelo e lave o rosto, para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê em secreto. E seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.
Ora, há todo o tipo de jejum público na Bíblia, incluindo o Novo Testamento. Por exemplo, Atos 13.1-3 e 14.23. Se alguém descobre que você está jejuando, você não peca com isso. O valor do seu jejum não é destruído se alguém percebe que você não compareceu ao almoço. É possível jejuar com outras pessoas — por exemplo: nosso grupo de apoio jejuando juntos num retiro para buscar ao Senhor — é possível jejuar assim, sem jejuar “a fim de que outros vejam.” Ser visto jejuando e jejuar para ser visto não é a mesma coisa. Ser visto jejuando é um mero acontecimento. Jejuar PARA SER VISTO é um motivo autoexaltador do coração.

O TESTE PROPOSTO POR JESUS DA REALIDADE DE DEUS EM NOSSAS VIDAS

Assim, Jesus nos dá uma instrução que avaliará os nossos corações. Ele nos diz que quando jejuamos, não devemos fazer nenhum esforço para sermos vistos. Na realidade, devemos fazer esforço em outra direção: não sermos vistos. Arrume seu cabelo, lave o seu rosto, a fim de que, tanto quanto possível, as pessoas nem sequer saibam que você está jejuando.
Mas, ele vai além disso e diz que o seu objetivo deve consistir em ser visto por Deus, não pelos homens. “Ao jejuar, arrume o cabelo e lave o rosto, para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê em secreto. E seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.” Jejuar para ser visto por Deus em secreto.
O que Jesus faz aqui é testar a realidade de Deus em nossas vidas. Ó, como é fácil realizar tarefas religiosas quando outros estão olhando — pregar, orar, freqüentar a igreja, ler a Bíblia, atos de misericórdia e graça, etc. A razão para isso não é apenas o louvor que podemos receber, mas mais sutilmente o sentimento de que a verdadeira efetividade em nossas ações espirituais está no eixo horizontal entre as pessoas, não no eixo vertical com Deus. Se as crianças me vêem orando nas refeições, isso lhes fará bem. Se o grupo de apoio me vê jejuando, eles poderão ser inspirados a fazer o mesmo. Se meu colega de quarto me vê lendo a Bíblia, poderá ser motivado a lê-la. Em outras palavras, nós achamos que o valor de nossa devoção é o efeito horizontal sobre as pessoas quando elas nos vêem.
Agora, isso não é completamente mau. Mas o perigo é que tudo da nossa vida começa a ser justificado e entendido simplesmente no nível horizontal, pelos efeitos que isso pode ter naqueles que o presenciam. E assim, Deus pode se tornar uma pessoa secundária nas nossas vidas. Pensamos que Ele é importante porque todas estas realizações são aquelas que Ele deseja de nós. Mas Ele mesmo está saindo do quadro como o foco de tudo isso.
Jesus, portanto, testa os nossos corações para ver se Deus será nossa suficiência — quando ninguém mais sabe o que estamos fazendo. Quando ninguém está dizendo: “Como você está progredindo no jejum?”. Nenhuma pessoa sequer sabe — nenhuma, mas Deus sabe! Jesus nos chama para uma orientação radical sobre o próprio Deus. Ele nos empurra para ter um relacionamento real, incondicional, autêntico e pessoal com Deus. Se Deus não é real para você, será miserável suportar alguma dificuldade com Deus sendo o único que sabe. Tudo parecerá muito inútil, totalmente ineficiente porque toda a extensão de possibilidades horizontais será anulada, pois ninguém sabe o que você está experimentando. Tudo o que importa é Deus, quem Ele é, o que Ele pensa e o que fará.

A PROMESSA DE JESUS PARA AQUELES CUJO FOCO É DEUS

Isso nos traz para a última parte do versículo 18 e a promessa feita por Jesus sobre o que Deus fará para aqueles que se focam verticalmente nele e não precisam do louvor de outras pessoas para fazer sua devoção valer a pena. Ele diz: “Mas apenas seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.”
A palavra “repay” (reembolsar) na NASB (New American Standard Bible) é provavelmente um pouco mercenária demais. Sugere um negócio: fazemos o trabalho do jejuem e Deus nos paga com salários. Isso não é necessariamente implicado na palavra que simplesmente significa “dar de volta” ou “devolver.” Em alguns lugares isso pode ser dinheiro. Em outros, justiça. E, em outros, pode ser a resposta graciosa de Deus a um ato de fé e oração. Este último sentido é o que eu creio ser a idéia aqui.
Deus nos vê jejuando. Ele vê que temos um profundo desejo de nos colocarmos em jejum. Vê que o nosso coração não está buscando os prazeres ordinários da admiração e do aplauso humanos. Vê que agimos, não baseados no poder de impressionar outros com a nossa disciplina, mas baseados na nossa fraqueza, a fim de expressar a Deus nossas necessidades e nosso grande desejo de que Ele aja. Quando vê isso, Ele responde. Temos visto Ele agindo nestas últimas semanas de jejum de alguns modos notáveis. Pessoas fechadas para receber o evangelho, tornando-se acessíveis. Outros, indispostos para se reconciliarem, abrindo-se para isso. Alguns, desinteressados e indiferentes, despertando-se para a grandeza de Deus e Sua salvação.

QUAL É A “RECOMPENSA” QUE JESUS PROMETE?

Mas qual é a “retribuição” ou “recompensa” que Jesus promete do Pai aqui? Poderia ser “o louvor dos homens”? Faríamos de Deus um ingênuo, se tentássemos usá-lo como um atalho para alcançar o que realmente queremos no lugar dele, o louvor dos homens. Esta não é a recompensa que Ele dá.
Poderia ser dinheiro? O próprio versículo seguinte (v. 19) nos adverte contra ajuntar tesouros na terra e nos diz para ajuntarmos tesouros nos céus — onde não há o dinheiro terreno, mas apenas fé e amor.
Não, o melhor lugar para descobrirmos a recompensa pelo nosso jejum é olhar aqui para o Sermão do Monte (Mateus 5-7). Por exemplo, a oração que o Senhor Jesus acabou de nos ensinar a orar em Mateus 6.9-13 com três principais desejos: que o nome de Deus seja santificado ou reverenciado, que o seu reino venha, e que sua vontade seja feita na terra como no céu. Esta é a principal recompensa que Deus nos dá pelo nosso jejum. Jejuamos pelo desejo que o nome de Deus seja conhecido, respeitado e honrado, pelo desejo que seu governo seja estendido e consumado na história, e pelo desejo que sua vontade alcance domínio em todo o lugar com a mesma devoção e energia que os anjos, incansavelmente, mostram sem cessar no céu, para sempre e sempre.
Com certeza, Ele nos dá muitas coisas por meio do jejum. E não é errado buscar especificamente por ajuda em cada área de nossas vidas, por meio do jejum. Mas, estes três pedidos: santificar o Seu nome, buscar o Seu reino, e fazer a Sua vontade — nos darão o teste para vermos se todas as outras coisas que desejamos são expressões destas. Queremos nossos filhos e filhas salvos porque isso santificaria o nome de Deus? Desejamos que a Coréia do Norte se abra por causa do avanço do reinado de Jesus? Queremos líderes honestos no governo porque a vontade santa e revelada de Deus para a sua criação está em jogo? Queremos a Bethlehem [igreja local de John Piper] reavivada e despertada com o poder divino, amor e alegria, pois isso glorifica o nome de Jesus, estende seu reino e realiza a Sua vontade?
É para isso que Jesus nos chama: um jejum radicalmente orientado em Deus. Então, para o bem da sua alma, em resposta a Jesus, para o avanço do reino do grande Deus, mantendo o propósito de glorificar Seu nome, desfrute o jejum, arrume seu cabelo, lave o rosto e que o Pai, que o vê em secreto, veja você abrir com jejum o seu coração cheio de anseio por Ele. O Pai que vê em secreto está cheio de recompensas para a sua alegria e glória dEle.



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