4.1.12

Davi dançou, eu também quero dançar!



Este é um dos argumentos que mais escuto da parte daqueles que defendem a "dança litúrgica" durante os cultos públicos nas igrejas evangélicas. Se o rei Davi dançou diante da arca de Deus, quando a mesma estava sendo trazida de volta para Jerusalém, por que nós não podemos, da mesma forma, expressar nossa alegria diante de Deus em nossos cultos, com danças de caráter religioso? Afinal, a Bíblia menciona não só Davi, mas Miriã e outras pessoas que dançaram de alegria na presença do Senhor (a imagem acima de Davi dançando é do famoso pintor francês James Tissot).

Não consigo me convencer com esse argumento. Eu sei que existem outros, mas esse, em particular, não me convence. Não é que eu seja contra a dança em si. Sinceramente, não vejo como considerar a dança como um ato pecaminoso, como parece que alguns segmentos evangélicos fazem. Se Davi dançou, e como ele outros personagens da Bíblia, isso pode não provar que devemos dançar em nossos cultos, mas no mínimo é uma evidência de que a dança em si não é pecaminosa, errada ou imprópria para o cristão. A não ser, é claro, aquelas danças sensuais, provocativas, eróticas ou, no mínimo, sugestivas, que despertem paixões e a lascívia. Nesse caso, me junto aos Pais da Igreja, como Basílio, João Crisóstomo, Agostinho, Tertuliano, entre outros, que condenaram veementemente este tipo de dança por parte parte dos cristãos.

Mas, nem toda dança é sensual. Quando eu estava estudando para meu doutorado nos Estados Unidos frequentava com minha família uma igreja presbiteriana muito firme biblicamente. Uma vez por mês os casais da igreja se encontravam no salão social num sábado à noite onde, liderados pelo pastor e sua esposa, ouviam música country, jazz, clássica, e eventualmente dançavam (cada um com seu cônjuge, veja bem!). Minha esposa Minka e eu estivemos lá umas poucas vezes. Nós mesmos não chegamos a dançar, sou meio duro nas articulações e daria um espetáculo horroroso, matando a Minka de vergonha... hehehehe. Mas foi uma experiência muito interessante, que me marcou pela alegria, naturalidade e pureza do evento. E serviu para demonstrar o que eu já pensava, que dançar em si não é pecado.

Voltemos a Davi. Por que então não consigo aceitar que o exemplo dele é definitivo como base para as danças litúrgicas, ministérios de coreografia, dança profética e grupos de danças durante os cultos?

Bem, primeiro porque não acredito que devamos fazer normas ou estabelecer princípios gerais para a vida da igreja simplesmente a partir de atos, ações, eventos, incidentes envolvendo os heróis da Bíblia. Nem tudo o que aconteceu na vida deles pode virar paradigma para os cristãos. A não ser aquelas coisas que a própria Bíblia determina. Jesus, por exemplo, recomendou que imitássemos Davi em sua atitude para com a lei cerimonial (Mt 12.3). Davi é citado como homem segundo o coração de Deus (AT13.22), que serviu a Deus em sua própria geração (At13.36), no que deveria ser imitado. Sua fé o coloca na galeria dos heróis da fé em Hebreus (11.32) e serve de exemplo para nós. Ainda poderíamos mencionar seu arrependimento e contrição após ter pecado contra Deus (Salmos 32 e 51). Tais coisas são norma e regra geral para todos os cristãos. Isso não significa, todavia, que cada atitude de Davi sirva de modelo para nós.

Uma segunda dificuldade que tenho é com esse tipo de interpretação, muito popular hoje entre os evangélicos, que simplesmente transpõe para nossos dias os eventos históricos narrados na Bíblia, sem levar em consideração o contexto cultural, histórico, teológico e literário dos mesmos, e os usa como base para construir ritos, práticas e regras a serem seguidos nas igrejas cristãs. Moisés bateu com a vara na rocha - lá vem a reencenação do episódio nas igrejas como símbolo da vitória. Ouvi falar que a derrubada da muralha de Jericó foi recentemente reencenada numa igreja (usando uma muralha de isopor e gelo seco) como base para se clamar a vitória para o ano de 2009. E por aí vai. A lista é enorme. No caso de Davi, não poderíamos esquecer que na cultura do Antigo Oriente as danças eram usadas como manifestação popular pelas vitórias militares obtidas, e eram geralmente lideradas pelas mulheres. Foi o caso com a dança de Miriã (Ex 15.20), a filha de Jefté (Jz 11.34), as mulheres de Judá (1Sm 18.6) e a própria dança de Davi (2Sm 6.20). Ao que parece, o povo saía em passeata dançando em roda (sobre dança de roda, veja Juízes 21.21 e 23). Até onde sei, no Brasil não se costuma celebrar as vitórias com danças de roda. As danças têm outra conotação e servem a outros propósitos, nem sempre moralmente neutros.

Tudo bem, vá lá. Vamos supor, por um momento, que a dança de Davi sirva de base para nós, cristãos. O que o evento lúdico do rei de Israel poderia nos autorizar? Com certeza, não autoriza que dancemos nos cultos públicos de nossas igrejas, pois a dança de Davi foi numa passeata religiosa, nas ruas de Jerusalém, algo espontâneo e do momento. Ele não marcou um culto no templo de Jerusalém, que era o local determinado por Deus para os cultos a Ele, onde foi dançar de alegria perante o Senhor. Até onde eu sei, nos cultos determinados por Deus no Antigo Testamento não havia dança alguma. Deus não determinou a dança como elemento de culto, não há qualquer registro de que as mesmas fizessem parte do culto que lhe era oferecido no templo. E acho que os apóstolos e primeiros cristãos entenderam dessa forma, pois não há danças nos cultos do Novo Testamento.

Se formos usar o exemplo de Davi como base, chegaremos à conclusão de que a dança dele também não autoriza a criação de grupos de dança litúrgica nas igrejas, que se apresentam regularmente nos cultos. Não justifica nem a criação dos ministérios de dança e a descoberta do dom espiritual da dança litúrgica e profética. A dança de Davi foi um evento isolado e individual. Não foi feita por um grupo que treinava e ensaiava para se apresentar regularmente nos cultos do templo. Aliás, não encontro no Antigo Testamento qualquer indicação de que havia em Jerusalém um grupo de levitas que se dedicavam ao ministério da dança litúrgica e que se apresentavam regularmente durante os cultos no templo de Deus. E deve ser por isso que também não encontramos estes grupos no Novo Testamento. Acho que o rei de Israel cairia de costas se ele visse tudo o que se inventou hoje no culto a Deus com base naquele dia em que ele saltou de alegria diante da arca do Senhor.

Por último, acho que esse tipo de argumento, "Davi dançou, eu também quero dançar", deixa de lado alguns princípios importantes sobre o culto que devemos prestar a Deus. Primeiro, que embora toda nossa vida seja um culto a Deus (veja 1Co 10.31), Ele mesmo determinou que seu povo se reunisse regularmente para cultuá-lo, cantar louvores a seu Nome, buscá-lo publicamente em oração e ouvir Sua Palavra. Uma coisa não exclui a outra, mas não devem ser confundidas. Nem tudo que cabe na minha vida diária como culto a Deus caberia no culto público e solene. Por exemplo, posso plantar bananeira para a glória de Deus, mas não vejo como justificar isso no culto público regular das igrejas. Cabia perfeitamente a Davi dançar de alegria naquele dia, na procissão de vitória, nas ruas de Jerusalém. Todavia, não o vemos fazendo isso no templo de Jerusalém, durante os cultos estabelecidos por Deus.

Segundo, não podemos inventar maneiras de cultuar a Deus além daquelas que Ele nos revelou em Sua Palavra. Os elementos que compõem o culto a Deus, até onde eu entendo a Bíblia, são a oração, o cantar louvores, a ação de graças, a leitura e pregação da Palavra, as contribuições voluntárias de seu povo, o batismo e a Ceia (quando houver). É claro que a Bíblia não estabelece ritmos musicais, não nos dá orações fixas e nem mesmo uma ordem litúrgica a ser seguida. Mas, ela nos dá os princípios e os elementos do culto que Deus aceita. A questão, portanto, não é se Davi e outros heróis da fé dançaram, mas sim se as danças litúrgicas fazem parte daquele culto que Deus determinou em Sua Palavra. E mesmo que eu não tenha nada contra o dançar em si, não vejo como as danças possam ser enquadradas como elementos de culto.

Enfim. Ao ler a história da dança de Davi o que aprendo é o amor que ele tinha ao Senhor, e a alegria que o dominava pelas coisas de Deus. Aprendo que devo amar ao Senhor e me alegrar com as coisas dele à semelhança de Davi. Todavia, não creio que a maneira com que Davi expressou tais sentimentos seja elemento de culto para os cristãos. O texto está muito longe de requerer isso. (...) O culto público a Deus, quer nos templos, quer em qualquer outro lugar, é regido pela regra: "só devemos adorar publicamente a Deus com aqueles elementos de culto que encontramos na Bíblia".

Termino lembrando que neste post estou interessado apenas no uso do episódio da dança de Davi como base para as danças litúrgicas. Há vários outros argumentos usados para defender essa prática, cada vez mais comuns nas igrejas evangélicas (como por exemplo o Salmo 150), que não receberam atenção aqui, mas que podem ser alvo de uma futura postagem sobre o assunto.

(Paraibano, casado com Minka, pai de Hendrika, Samuel, David e Anna. Pastor presbiteriano (IPB), mestre e doutor em Interpretação Bíblica (África do Sul, Estados Unidos e Holanda), professor de exegese, Bíblia, pregação expositiva no Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper, da IPB, autor de vários livros.)
*Texto do artigo adaptado

2 comentários:

Luciano de Paula Lourenço disse...

O pr. Nicodemos foi bastante sábio ao denunciar esse vil procedimento nas igrejas ditas evangélicas. Alguns pastores-líderes não têm se comportado como homens de Deus ao permitirem esse sacrilégio nos momentos dos cultos. Vamos à igreja adorar ao Senhor, e lá vemos essa presepada. Quando vejo essa porcaria de dança na hora do culto, à minha mente chega o episódio da filha de Herodias, que danço perante Herodes, fato que motivou a decapitação do profeta de Deus João Batista(Mc 6:22,24) ) e a dança do povo de Israel junto ao ídolo inanimado feito de ouro(bezerro de ouro, logo após a saída do Egito(Ex 32:1-7). Pois é assim que esse procedimento carnal demonstra ser. É uma tremenda vergonha! É perfeitamente aplicável às igreja locais atuais, que adotam essa palhaçada nos horários do culto, as palavras de Jesus se referindo aos falsos adoradores: “Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”(Mc 7:6).

Artur Ribeiro disse...

Nobre Luciano, a paz do Senhor.

Você tem toda razão ao ficar enojado com essas danças... quando penso nesse assunto, também me vem à memória a dança que provocou a decapitação do maior homem nascido de mulher...

Que Deus nos guarde de nos conformarmos com essas invencionices!

Abraço e obrigado pela participação!

Artur

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