29.5.12

Igreja Crônica: A Campanha





O pastor de certa igreja, apesar de não ser tão frequente assim nos cultos semanais, percebeu que os irmãos a quem devia apascentar rareavam nesses cultos. No domingo era aquela maravilha. Igreja lotada; todo mundo adorando a Deus; sons de Aleluia pra cá; outros de Glórias pra lá. Pelo menos, é o que parecia. E assim ia: “uma bênça”, como ele próprio dizia. Mas isso era apenas no domingo; domingo à noite, digo, porque de manhã cedo, da mesma forma que no meio da semana, era uma tristeza.

Até que esse pastô pensou consigo: “Preciso dar um jeito pra mudar isso... Já sei! A única forma de chamar esse povo é fazendo uma campanha”.

- Ótima ideia, amor!, concordou sua esposa.

- É isso mesmo, abençoado!, alegrou-se o co-pastor, quase fazendo o “E zaz; e zaz” do Chaves.

- Pela Bíblia, acho que não é bem assim que vai conquistar os irmãos, ponderou o professor de Escola Dominical.

- Larga de ser murmurador, irmão – disseram alguns cooperadores e os líderes de conjuntos.

Então, antes de terminar o culto dominical vespertino seguinte, o “anjo da igreja” (como costumam se chamar e serem chamados), tão decidido quanto Roboão, anunciou:

- Irmãos, eu estava orando a Deus, pedindo direção, e eu sei que Ele vai derramar copiosas bença neste lugar. E para isso, vamo fazê uma campanha. O tema vai sê o seguinte:

“Haveria alguma coisa difícil ao Senhor?”
“Gênesis, capítulo 18, versículo 14.
12 sextas-feiras de ADORAÇÃO e VITÓRIA!”.

E mandou que estendessem a faixa.

Depois, o santo pastor informou quem seriam os preletores, fato que fez muitos “glorificarem”. Praticamente toda a igreja ficou entusiasmada com a nova campanha, principalmente por causa do tema... e também dos que pregariam, todos costumeiramente “usados por Deus grandemente!”.

Primeiro dia da famigerada campanha. Faltou lugar pra tanta gente. O povo se acotovelava “pra dar uns Glória” e ver o pregador profetizar a cada cinco, dez minutos e cantar dois, três hinos. Vez por outra o pregador dizia: “Todas as coisas vos serão acrescentadas! Receba a chave da vitória nesta nooooiteeee!!!” O delírio e a histeria tomava conta dos irmãos, que saíam felizes do templo... (Infelizmente, não tem espaço pra contar tudo).

A cada sexta-feira, uma meia-dúzia de irmãos recebia sua bênção. Era carro novo pra cá, porta aberta de emprego pra lá, aumento de salário ali, promessas de cura acolá. Sempre após 20 minutos de petição de ofertas.

Um pregador, na oitava ou nona sexta-feira, até pregou necessidade de arrependimento, quase se parecendo com a pregação do Senhor Jesus Cristo, de João Batista, de Pedro e de tantos outros. A única diferença entre ele e os demais é que o arrependimento deveria acontecer a fim de os irmãos enfermos serem curados. Fora essa pequena diferença, nada mais.

Esse recebe-recebe foi assim até o fim da campanha. Sempre com o templo lotado na hora do louvorzão e na hora da Palavra, claro! O pastor daquela igreja concluiu: “Dessa vez eu ganhei o povo!”

Aqueles irmãos realmente deram sinais de interesse e não faltaram em nenhum dia campanha! A avaliação dos obreiros foi unânime: “Essa campanha é uma bênça! Não tem nada difícil ao Senhor!”

Terminados os doze dias, na semana seguinte, no domingo na verdade (porque o pastor não tinha podido comparecer na sexta-feira subsequente, devido às suas bênçãos), ele estranhou um obreirozinho lhe dizer que apenas metade dos irmãos viera. Afinal, ele havia tido a grande ideia da campanha... Mas ficou sem entender o fenômeno.

De qualquer modo, a frequência semanal continuou (quer dizer, voltou) a rarear. Sabe aquele negócio de Pedro, Tiago e João? Então... Apenas aqueles mesmos irmãos que já iam aos cultos da semana antes da campanha estavam presentes dia após dia. Esses mesmos estavam na oração, nos cultos de ensino, nas EBD, no evangelismo.

E o restante? O restante estava cuidando das bênçãos recebidas... Mas não se espante: eles estavam à noite no domingo, ainda que meia-horamente atrasados...

Os tais pediram pro pastor lançar uma outra campanha, essa de sete domingos vespertinos, com o tema: “Mas graças a Deus que nos dá vitória! (1Co 15.57)...”.





Artur Freire Ribeiro


Texto publicado originalmente em janeiro de 2012.

Um comentário:

António Jesus Batalha disse...

Amigo e irmão Artur, passei e encontrei o seu blog e fiquei algum tempo a ler algumas coisas, me deixou maravilhado pelo que escreve, e ao ler suas postagens somos edificados. Gostei de poder encontrar alguém que ama Jesus, e pelo que li deu para notar que também ama o próximo. Que Jesus continue a derramar a Sua paz e unção sobre sua vida, deixo um convite se desejar fazer parte de meu blog eu ficaria radiante em ter pessoas assim como meus amigos virtuais, de seguida irei retribuir seguindo também seu blog. Obrigado que o amor de Jesus seja a cada dia consigo e com sua familia. António Batalha.

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