28.1.12

APÊNDICE 2 – AS BEM-AVENTURANÇAS DO ANTIGO TESTAMENTO


PORTAL ESCOLA DOMINICAL (www.portalebd.org.br)
PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2012
TEMA: A verdadeira prosperidade – a vida cristã abundante
COMENTARISTA DA REVISTA: José Gonçalves

APÊNDICE 2 – AS BEM-AVENTURANÇAS DO ANTIGO TESTAMENTO
              As bem-aventuranças no Antigo Testamento têm cunho espiritual.
Texto áureo
“Bem-aventurados os que trilham caminhos retos e andam na lei do Senhor.” (Sl.119:1)

INTRODUÇÃO
 Em complemento ao estudo deste trimestre, faremos uma breve análise do conceito de “bem-aventurança” no Antigo Testamento, a fim de mostrar que, mesmo na antiga aliança, a ideia de felicidade era despida de conotações materiais.
- Os ensinos de Jesus a respeito das bem-aventuranças têm pleno respaldo no Antigo Testamento.
I – AS BEM-AVENTURANÇAS NO PENTATEUCO E NOS LIVROS HISTÓRICOS
- Neste trimestre, uma lição nos apresentou o significado da prosperidade dos bem-aventurados, trazendo, para tanto, o sermão do monte, que se inicia pelas bem-aventuranças. Este ensino de Cristo tem pleno respaldo no Antigo Testamento e, por isso, a fim de mostrar que o significado de “bem-aventurança”, de “felicidade” nas Escrituras hebraicas era despido de conotações materiais imediatas, resolvemos fazer uma breve análise das bem-aventuranças no Antigo Testamento.
- No Antigo Testamento, a palavra que é traduzida por “bem-aventurado” é a palavra hebraica “ ‘esher” (אֶשֶר), cujo significado é “quão feliz”, que é, quase sempre, utilizada com um significado senão totalmente, predominantemente espiritual.
- A primeira vez que a palavra aparece na Versão Almeida Revista e Corrigida é em Gn.30:13, quando Leia, feliz porque sua serva Zilpa havia tido o segundo filho, igualando-se, assim, em número de filhos a Bilha, a serva de Raquel, disse que seria considerada bem-aventurada pela descendência de Israel, deu o nome de “Aser” (que significa bem-aventurado) à criança.
- Pelo que verificamos, pois, a bem-aventurança mencionada por Leia era o seu reconhecimento como “mãe” pela descendência de Israel, como alguém que era abençoada, que havia se desincumbido do dever de frutificação e multiplicação imposto por Deus a todos os homens, papel em que a participação da mulher era primordial. Leia havia deixado de gerar filhos (Gn.30:9) e, desta maneira, com a vinda de dois filhos por meio de sua serva Zilpa entendia ter retomado o papel de “mãe de Israel”.
- A ideia de bem-aventurança, pois, surge como uma felicidade, mas uma felicidade por se estar cumprindo um dever imposto por Deus ao ser humano, uma felicidade que decorre de um relacionamento com Deus. Há bem-aventurança quando se tem um real relacionamento com o Senhor.
- Em Dt.33:29, novamente a palavra aparece, no término das bênçãos de Moisés às tribos de Israel, um momento em que o patriarca, momentos antes de sua despedida, usado pelo Espírito de Deus, abençoa o povo que liderara por quarenta anos.
- Finalizando a sua bênção e se dirigindo a toda a nação israelita, Moisés chama Israel de “bem-aventurado”. E por que Israel era bem-aventurado? Responde o líder: porque Israel era um “povo salvo pelo Senhor”, um povo que tinha Deus por “escudo do socorro” e “espada da alteza”, motivo por que os inimigos seriam sujeitos e Israel pisaria sobre as suas alturas.
- A bem-aventurança de Israel não estava na “terra que mana leite e mel” que Deus lhes havia prometido. Não, não e não! A bem-aventurança de Israel estava na salvação que Deus lhe dera, na escolha divina para que fosse “reino sacerdotal e povo santo” (Ex.19:5,6), na circunstância de que, para cumprir o propósito divino, Israel seria socorrido e protegido pelo Senhor para vencer os inimigos e tomar posse da Terra Prometida.
- Esta noção de bem-aventurança, surgida nas últimas palavras proferidas por Moisés, que se encontrava muito próximo de passar para a eternidade é muito elucidativa, pois é como que um resumo de tudo quanto o grande líder havia presenciado ao longo de sua vida terrena. Moisés via que a felicidade de Israel estava na “salvação do Senhor”, não naquilo que viria a possuir em Canaã. Que tenhamos esta mesma visão de Moisés, amados irmãos!
- A palavra “bem-aventurado” somente aparecerá, novamente, nos livros históricos, em I Rs.10:8 e II Cr.9:7, textos paralelos, que tratam da expressão utilizada pela rainha de Sabá em sua visita ao rei Salomão. Admirada por ver tanta prosperidade, a rainha disse que os servos de Salomão eram “bem-aventurados” porque estavam diante de Salomão e ouviam a sua sabedoria.
- Em meio a tanta opulência material, num tempo em que o ouro era tanto que a prata nada valia (I Rs.10:21), a rainha de Sabá chamou os servos de Salomão de “bem-aventurados”, porque eles podiam ouvir a sabedoria do rei, sabedoria que havia sido posta por Deus em seu coração (I Rs.10:24).
- Temos aqui um eloquente exemplo de que a Bíblia Sagrada não considera que a “bem-aventurança”, a “felicidade” esteja na posse de bens materiais. Apesar de haver um ambiente riquíssimo, verdadeiramente glorioso sob o ponto-de-vista material (o que é reconhecido pelo próprio Jesus em Mt.6:29 e Lc.12:27), a “bem-aventurança” estava não em coisas materiais, mas em poder desfrutar e aprender com a sabedoria que Deus havia dado a Salomão.
- De igual modo, devemos, a exemplo da rainha de Sabá, entender que a “bem-aventurança” de cada ser humano não se encontra no desfrute ou posse de riquezas materiais, mas em podermos ouvir e estar diante daquele que é maior que Salomão (Lc.11:31), Jesus Cristo, poder e sabedoria de Deus (I Co.1:24).
II – AS BEM-AVENTURANÇAS NOS LIVROS POÉTICOS PROPRIAMENTE DITOS (JÓ, SALMOS E CANTARES)
- Os livros poéticos são os que mais contêm bem-aventuranças no Antigo Testamento, motivo pelo qual analisaremos separadamente os livros poéticos propriamente ditos (Jó e Salmos) e os livros de sabedoria (Provérbios e Eclesiastes).
- Em Jó 5:17, Elifaz, em sua primeira fala contra Jó, afirma que “bem-aventurado é o homem a quem Deus castiga”. Ainda que tenhamos de ter cuidado nas falas dos amigos de Jó, pois sua visão sobre Deus não era correta (Jó 42:7), nem por isso podemos desprezar tudo quanto disseram, como é o caso desta “bem-aventurança”, em que Elifaz fala a respeito do homem e não de Deus.
- Aqui, o mais velho dos amigos de Jó diz que é “bem-aventurado a quem Deus castiga”, ensino que encontra respaldo nas Escrituras, como, por exemplo, em Hb.12:5,6. O castigo divino, a disciplina dada por Deus é uma prova de que o homem castigado é amado por Deus e foi recebido como Seu filho. E ser filho de Deus, ser herdeiro de Deus e coerdeiro de Cristo (Rm.8:17), como Jesus nos ensina no sermão do monte é ser bem-aventurado.
- Como este ensino é diferente do que ensinam os “pregadores da prosperidade”, que entendem que Deus jamais pode castigar um filho Seu. Entretanto, ser alvo do castigo de Deus, da disciplina divina, ter a consciência de que se é filho e não bastardo, é uma bem-aventurança. Aleluia!
- Em Jó 29:11, o patriarca Jó, ao se lamentar do seu primeiro estado, diz que era tido como “bem-aventurado” pelos que o ouviam. Dentro do chamado paralelismo hebraico, que é a circunstância de, notadamente em versos de um poema, se repetir a mesma ideia com palavras diferentes, entendemos que a “bem-aventurança” mencionada por Jó não era a sua posição social ou econômico-financeira do passado, mas, sim, o “testemunho”.
- Assim, a bem-aventurança de Jó não estava nas posses materiais que tinha antes da sua provação, mas, sim, no seu testemunho, testemunho este que era dado pelo próprio Deus, ou seja, de que era homem sincero, reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1:1,8).. É na posse destas qualidades agradáveis ao Senhor que se encontra a bem-aventurança, a felicidade de um ser humano.
- O livro dos Salmos já começa com uma bem-aventurança. No Salmo primeiro, o salmista já afirma que “bem-aventurado é o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores, antes tem o seu prazer na lei do Senhor e na sua lei medita de dia e de noite” (Sl.1:1,2).
- Este salmo é extremamente importante para avaliarmos a questão da prosperidade, pois é um texto muito utilizado pelos “pregadores da prosperidade” para dizer que “tudo que o crente fizer, prosperará”. No entanto, a prosperidade indicada está umbilicalmente vinculada à bem-aventurança que abre o salmo, bem-aventurança esta que diz respeito a ter prazer na lei do Senhor e nela meditar de dia e de noite.
- A felicidade do ser humano encontra-se em observar a lei do Senhor, em conhecê-la, em meditar nela continuadamente, o que permite que, na jornada da vida, não se ande segundo o conselho dos ímpios, nem se detenha no caminho dos ímpios, nem se assente na roda dos escarnecedores.
- “Tudo quanto fizer, prosperará” é resultado de uma vida de submissão à vontade do Senhor, de uma vida arraigada na Palavra do Senhor, pois o bem-aventurado é aquele que é “como a árvore plantada junto ao ribeiro de águas, que dá o seu fruto na estação própria, e cujas folhas não caem” (Sl.1:3). Prosperidade depende de inabalável firmeza na Palavra do Senhor, prosperidade é frutificar espiritualmente no tempo do Senhor, segundo a vontade do Senhor, algo muito, mas muito diferente mesmo do que dizem os falsos pregoeiros da confissão positiva.
- No Salmo segundo, temos outra bem-aventurança: “bem-aventurados todos aqueles que n’Ele confiam” (Sl.2:12). Quem é este “Ele”? É o Filho, o Rei ungido por Deus (Sl.2:6), ou seja, o Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A bem-aventurança é confiar em Cristo, é ter fé n’Ele, é esperar n’Ele, algo que os falsos pregadores da prosperidade não fazem, pois preferem “mandar” e “obrigar” o Senhor.
- No Sl.32:1,2, temos que “bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade e em cujo espírito não há engano”. Temos aqui, nestas expressões didáticas de Davi, que a razão de ser da felicidade do homem é o perdão dos seus pecados por parte do Senhor. Estes pecados, que no tempo da lei eram apenas cobertos, foram tirados por Cristo Jesus (Jo.1:29) e reside aí a verdadeira felicidade do ser humano.
- A bem-aventurança encontra-se no fato de podermos ter novamente comunhão com Deus, de Jesus ter pagado o preço dos nossos pecados e, por isso, podermos desfrutar, novamente, da Sua companhia, da Sua presença. Como isto é diferente do que propalam os enganadores da confissão positiva…
- No Sl.33:12, é dito que “bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo que ele escolheu para Sua herança”. Neste salmo, o salmista como que rememora as palavras de Moisés em Dt.33:29 e demonstra que a bem-aventurança de uma nação, “in casu”, Israel, não residia na posse da “terra que mana leite e mel” e, sim, na circunstância de se ter sido escolhido por Deus para ser a “Sua herança”. A bem-aventurança está na filiação divina, na condição de filho de Deus, não na posse de riquezas materiais.
- No Sl.34:8, Davi, num momento extremamente delicado de sua vida, quando teve de se fazer de louco para escapar das mãos de Abimeleque, rei de Gate, chega a uma conclusão: a de que bem-aventurado é o homem que confia em Deus. Tendorecebido o livramento da parte do Senhor, Davi verifica que a verdadeira felicidade está em confiar em Deus, mesma conclusão a que havia chegado o autor do Salmo 2.
- Davi repete esta sua afirmação no Sl.40:4, afirmativa, porém, que é completada pois, pelo paralelismo hebraico, aprendemos que “pôr no Senhor a sua confiança” é “não respeitar os soberbos nem os que se desviam para a mentira”. Vemos aqui que a vera felicidade do homem está em confiar em Deus e que confiar em Deus é ter humildade, submissão a Deus, como também manter-se fiel à Sua Palavra, que é a verdade (Jo.17:17). Assim, quem passa a confiar nas lorotas dos “teólogos da prosperidade”…
- Davi, no Sl.41:1, fala de outra bem-aventurança, dizendo que “bem-aventurado é “aquele que atende ao pobre”. Temos aqui, pela vez primeira, nas Escrituras, a lição de que a felicidade está em dar e não em receber bens materiais. Quem atende ao pobre, ou seja, quem usa da abundância de bens materiais para ajudar a quem precisa, é bem-aventurado. Vemos como não são bem-aventurados os “enriquecidos” da “teologia da prosperidade” que apenas amealham para si, nunca para o próximo…
- No Sl.65:4, Davi, em outro salmo, dá-nos conta de outra bem-aventurança: “bem-aventurado aquele a quem Tu escolhes e fazes chegar a Ti, para que habite em Teus átrios”. A verdadeira felicidade, a real prosperidade está em ser escolhido por Deus e manter comunhão com Ele. Mais uma vez, as Escrituras nos mostram que a bem-aventurança é um estado espiritual de salvação, jamais a posse de bens materiais.
- No Sl.72:17, um salmo de Davi feito em homenagem a Salomão, Davi profetiza e anseia que seu filho seja considerado “bem-aventurado” pelas nações. De onde viria esta bem-aventurança? O que Davi entendia ser a real prosperidade? Do fato de que o novo rei receberia de Deus os Seus juízos e a Sua justiça (Sl.72:1). Desta circunstância, Salomão poderia ter justiça e paz no seu reinado, dando condições para que, então, houvesse prosperidade material. A bem-aventurança, uma vez mais, está relacionada com a comunhão com Deus.
- No Sl.84, o salmista fala de duas bem-aventuranças. A primeira é a dos “que habitam na casa do Senhor” (Sl.84:4), repetindo-se o que Davi já cantara no Sl.65:4. “Habitar na casa do Senhor” é ter comunhão com Deus, éser dedicado à adoração. Reside aqui a felicidade do ser humano. Esta comunhão com Deus, que parte do interior, é a segunda bem-aventurança, a “do homem cuja força está em Deus” (Sl.84:5), o que, pelo paralelismo hebraico, entendemos que se trata da circunstância de ter conduzido a vida conforme a vontade de Deus, de ter, como diz o salmista, “o coração com os caminhos aplanados”.
- No Sl. 106:3, o salmista diz que “bem-aventurados são os que observam o direito, o que pratica a justiça em todos os tempos”. Como que complementando o sentido dado no Sl.84:5, vemos que a felicidade está em praticar a justiça, ou seja, em seguir aquilo que Deus tem determinado como o correto, o justo, o certo.
- No Sl.112:1, o salmista reafirma este pensamento, ao dizer que é “bem-aventurado o homem que teme ao Senhor, que em Seus mandamentos tem grande prazer”. Repete-se a bem-aventurança do Sl.1, mostrando-se que a felicidade do homem está em servir a Deus, cumprindo a Sua Palavra.
- O maior de todos os salmos não poderia deixar de mencionar bem-aventuranças, até porque seu tema é a Palavra de Deus e, como temos visto nestes últimos salmos, as bem-aventuranças estão vinculadas à observância das Escrituras.
- O Sl.119 já começa com uma bem-aventurança, qual seja, a “dos que trilham caminhos retos e andam na lei do Senhor”. A bem-aventurança, uma vez mais, encontra-se relacionada à obediência à Palavra do Senhor. No versículo seguinte, o salmista apresenta-nos outra bem-aventurança, a “dos que guardam os Seus testemunhos e O buscam de todo o coração”. Feliz, mais do que feliz é o homem que não só obedece ao Senhor e à Sua Palavra, mas também que busca a Deus de todo o coração. A bem-aventurança está em buscar a Deus e não às bênçãos de Deus.
- No Sl.127:5, um cântico de degraus de autoria de Salomão, o rei que foi tão rico apresenta-nos como bem-aventurança “o homem que enche a sua aljava de filhos”, a mostrar que muito mais importante do que ter bens materiais é cumprir o dever de multiplicação dado por Deus ao homem. A bem-aventurança, novamente, está condicionada à obediência à voz do Senhor Deus. Infelizmente, nos dias em que vivemos, muitos, inclusive os que cristãos se dizem ser, preferem não ter filhos para não ter gastos, para ter uma vida “feliz”…
- O Sl.128, outro cântico dos degraus, começa com uma bem-aventurança, a de “aquele que teme ao Senhor e anda nos Seus caminhos”, que é repetição do que se encontrou em salmos anteriores, como já tivemos ocasião de analisar. O saltério deixa bem presente que a felicidade do ser humano está em ser obediente ao Senhor.
- No Sl.144:15, um salmo de Davi, repete-se a bem-aventurança constante do Sl.33:12, qual seja, a bem-aventurança do povo cujo Deus é o Senhor.O segredo da felicidade de uma nação não está em ter recursos naturais abundantes, nem tampouco em dar condições materiais sublimes a seu povo, mas em ter a Deus como seu Senhor.
- No Sl.146:5, o salmista diz que é bem-aventurado “aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio e sua esperança está posta no Senhor seu Deus”. Vemos, ainda esta vez, a razão de ser da felicidade do homem: a sua comunhão com o Senhor. Poder ser ajudado por Deus e esperar n’Ele é a bem-aventurança, a verdadeira felicidade. Entretanto, os “pregoeiros da prosperidade” preferem confiar nas riquezas materiais…
- Em Ct.6:9, temos a única ocorrência da palavra “bem-aventurado”, na verdade, “bem-aventurada”, para mencionar a amada do noivo, aquele que é única na multidão de mulheres do harém do noivo, por ser “a pomba, a imaculada do noivo”. Apesar do caráter romântico do poema, vemos, claramente, que a bem-aventurança está relacionada ao caráter imaculado da noiva, não à sua formosura, nem tampouco à sua situação patrimonial.A Igreja de Cristo é bem-aventurada por causa da sua santidade. Aleluia!
III – AS BEM-AVENTURANÇAS NOS LIVROS DE SABEDORIA (PROVÉRBIOS E ECLESIASTES)
- A primeira ocorrência da palavra “bem-aventurado” no livro de Provérbios é em Pv.3:13 em que se afirma que é “bem-aventurado o homem que acha sabedoria e o homem que adquire conhecimento”. Aqui, sabemos todos, Salomão não está se referindo à erudição intelectual, mas ao temor do Senhor, que é o princípio da ciência (Pv.1:7). A origem da felicidade, pois, está em se achar a sabedoria, que o próprio autor de Provérbios vai indicar que se trata de uma pessoa eterna (Pv.8:22,23)., que outro não é senão o Senhor Jesus (Jo.1:1). A bem-aventurança está em achar a Cristo, nada mais nada menos que isto.
OBS: “…No livro mais remoto da Bíblia já encontramos apresentada a Sabedoria em forma de uma pessoa, quando Jó disse: ‘Onde se achará a sabedoria?’ 28.12. No livro de Provérbios, Salomão aconselhou o sábio a ouvir e crescer em ciência. Salomão se refere à Sabedoria como tendo morada, como possuindo conhecimento, agindo com discrição, dando autoridade aos reis e governadores; como possuída por Jeová; estando presente no princípio com Jeová, antes da criação; a Sabedoria, como arquiteto, enchia-se de gozo dia após dia; convidava para banquete etc. Ora, considerando que o Verbo estava no princípio com Deus e tudo foi feito por Ele, e sendo Ele o Unigênito de Deus, e vendo aqui a Sabedoria mencionada nas mesmas circunstâncias do Verbo, vemos necessariamente nela a Segunda Pessoa da Trindade, o Filho de Deus, Pv cap. 8.…” (NYSTRÖM, Samuel. Jesus Cristo, nossa glória. 2.ed., pp.39-40).
- Em Pv.3:18, completando o raciocínio, o proverbista diz que “bem-aventurados são todos os que retêm a sabedoria”, inclusive, diz o proverbista, é melhor achar e reter a sabedoria do que ter mercadorias de ouro, de prata, rubins e tudo o que se pode desejar (Pv.3:14-18). Salomão, que teve riquezas provenientes de Deus em abundância, mostra que nada se pode comparar a ter Cristo Jesus. Aprendamos esta verdade e não confiemos nas lorotas dos “teólogos da prosperidade”!
- Em Pv.8, que, conforme já vimos, é um capítulo em que a Sabedoria é apresentada como uma pessoa, uma verdadeira descrição de Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus (I Co.1:24), vemos no versículo 32 que é a própria Sabedoria quem afirma que “bem-aventurados são os que guardarem os Meus caminhos” e, no versículo 34, “bem-aventurado o homem que Me dá ouvidos, velando às Minhas portas cada dia, esperando às ombreiras da Minha entrada”.
- A bem-aventurança está, pois, em obedecer a Cristo, em buscá-l’O diariamente, atentando para a Sua voz e jamais se distraindo com as coisas desta vida, procurando sempre aprender d’Ele e desfrutar da Sua presença. O proverbista, após indicar a segunda bem-aventurança, dá a razão de ser dela, dizendo que o que A acha achará a vida e alcançará o favor do Senhor, mas o que pecar contra Ela violentará a sua própria alma: todos os que A aborrecem amam a morte (Pv.8:35,36). Como, então, podemos dizer que quem deixa a Cristo e vai atrás das riquezas seja bem-aventurado?
- Em Pv.14:21, o riquíssimo Salomão afirma que é bem-aventurado “quem se compadece do pobre” e, dentro do paralelismo hebraico, aprendemos que “compadecer-se do pobre” é “não desprezar o companheiro”. “Compadecer-se do pobre” é não pecar, diz o proverbista. Portanto, bem-aventurado é quem não peca e, quem tem abundância de bens, deve se compadecer do pobre, pois, se não fizer isto, estará a pecar. Como, então, entender que são “homens ou mulheres de Deus” os que costumam dar “testemunhos de prosperidade”, que dizem estar em vida regalada mas que nem sequer mencionam ter alguma preocupação para com os pobres e necessitados, preferindo-os tão somente chamar de “filhos do maligno”?
- Em Pv.16:20, o proverbista, fazendo coro ao salmista, afirma que “bem-aventurado é o que confia no Senhor”. No paralelismo hebraico, aprendemos que “confiar no Senhor” é “atentar prudentemente para a Palavra” e vemos, assim, a conjugação de duas bem-aventuranças já previamente analisadas: confiar em Deus é atentar prudentemente para a Palavra, em outros termos, é obedecer à Bíblia Sagrada. Aqui está a verdadeira felicidade do ser humano.
- Em Pv.20:7, o proverbista diz que “bem-aventurados são os filhos do justo”. Ter-se-ia aqui um caso de “bem-aventurança hereditária”? Nada disso!Os filhos do justo são bem-aventurados porque o justo andou na sua sinceridade, ou seja, por ter vivido em comunhão com Deus pôde ensinar, a começar do seu exemplo, os seus descendentes, de forma que tenham sido eles educados na lei do Senhor e, como tal, não se desviando de tais caminhos, também serão bem-aventurados. Os filhos do justo não são bem-aventurados porque seu pai “ficou rico” em servir a Deus, mas porque andou na sua sinceridade. Lembremos disso, amados irmãos, para que não cair nas ciladas satânicas dos “pregoeiros da prosperidade”.
- Em Pv.28:14, o escritor sagrado afirma que “bem-aventurado o homem que continuamente teme”, o que, pelo paralelismo hebraico, entendemos que se trata daquele que não endurece o seu coração e, deste modo, não vem a cair no mal. A bem-aventurança está, uma vez mais, em ouvir a voz de Deus, em ser-Lhe obediente, em negar a sua própria vontade para fazer a vontade do Senhor. Quão diferente é esta bem-aventurança dos conselhos tresloucados dos “teólogos da prosperidade” que querem submeter o Senhor a seus caprichos…
- Em Pv.29:18, a bem-aventurança diz respeito a “guardar a lei”, entendendo-se aqui, pelo paralelismo, que “guardar a lei” é ouvir a profecia, ou seja, estar atento às mensagens do Senhor ao Seu povo. É interessante observar que muitos “teólogos da prosperidade” desacreditam no dom espiritual de profecia, como também, por distorcer as Escrituras, negam-nas, não buscam ter uma visão global de seu teor, a mostrar, claramente, que não querem que os seus ouvintes sejam bem-aventurados.
- Em Pv.31:28, a mulher virtuosa é chamada de “bem-aventurada” tanto por seus filhos e por seu marido. E por que seus familiares a chamam assim?  Porque ela teme ao Senhor e, por isso, pratica obras sublimes (Pv.31:29-31). Não é a sua formosura, nem tampouco a sua riqueza que a faz bem-aventurada, mas o fato de temer ao Senhor, demonstrando isto com suas obras. Poderia haver melhor final para o livro de Provérbios senão essa assertiva?
- A única ocorrência da palavra “bem-aventurado” em Eclesiastes está em Ec.10:17, onde o pregador diz que a terra cujo rei é filho dos nobres e cujos príncipes comem a tempo para refazerem as forças e não para bebedice é uma terra bem-aventurada.
- Para bem entendermos este texto, devemos observar o versículo anterior, onde o pregador diz um “ai” a respeito da terra cujo rei é criança e cujos príncipes comem de manhã. O contraste estabelecido pelo pregador mostra-nos que a felicidade da terra está em ter um rei e príncipes sábios, prudentes, que bem sabem se conduzir no trato das coisa pública, que sejam prudentes e não precipitados. Ora, como Salomão já indicara no livro de Provérbios, ter sabedoria é ser temente a Deus, de modo que, mais uma vez, vemos que as Escrituras ensinam que a bem-aventurança de uma nação se encontra em temer a Deus, mais precisamente, no texto em apreço, no temor a Deus da parte de seus governantes.
IV – AS BEM-AVENTURANÇAS NOS LIVROS PROFÉTICOS
- Não são abundantes as bem-aventuranças nos livros proféticos. Em Is.30:18, o profeta afirma que “bem-aventurados são os que esperam no Senhor”. Aqui o profeta repete algo que já fora dito pelo salmista algumas vezes. Tal bem-aventurança é afirmada em meio a uma profecia de juízo contra o povo, a fim de que, apesar da manifestação da ira do Senhor por causa da rebeldia (Is.30:1), Israel soubesse que Deus era um Deus de equidade e que, por isso, valeria a pena aguardar a Sua salvação.
- Em Is.32:20, o profeta, ao trazer a promessa da vinda de um Rei de justiça (Is.32:1), ao término da profecia, diz serem “bem-aventurados os que semeiam sobre todas as águas e que enviam o pé do boi e do jumento”.
- Esta bem-aventurança está vinculada ao livramento prometido ao povo após a execução do juízo, já aludida anteriormente, pois, após a manifestação da ira, o Senhor promete que “dará chuva sobre a semente” e haverá fertilidade da terra (Is.30:23-26), resultado do “derramamento do Espírito lá do alto” (Is.32:15).
- Vemos, pois, que a bem-aventurança não está na fertilidade da terra nem nas boas colheitas e sucesso da criação, mas, sim, no fato de que o Senhor irá restaurar espiritualmente o Seu povo, de modo a que eles vivam em paz e justiça (Is.32:16-18). Nesta verdadeira profecia atinente ao reino milenial de Cristo, vemos que a bem-aventurança se entende como um estado espiritual de comunhão com Deus.
- Em Is.56:2, o profeta afirma que “bem-aventurado o homem que manter o juízo e fizer justiça”, bem-aventurança que deve ser entendida à luz de Is.56:1. No paralelismo hebraico, esta bem-aventurança está associada a “guardar-se de profanar o sábado e de perpetrar algum mal”.
- Então, bem-aventurado é quem guarda o sábado? Sim e não. Lembremo-nos de que estamos no Antigo Testamento, e, deste modo, o profeta se dirige a Israel. O sábado era o sinal da aliança entre Deus e Israel (Ex.31:13) e, portanto, o que o profeta está a dizer é que a fidelidade, o honrar o compromisso assumido com Deus era uma bem-aventurança para todo israelita.
- Mais uma vez vemos que o cumprimento dos mandamentos do Senhor, a guarda da Sua Palavra é a verdadeira felicidade para o homem. Hoje, a Igreja não está sujeita ao sábado, mas, sim, a um compromisso de ser fiel a Deus até a morte, assumido solene e publicamente quando do batismo nas águas, residindo aí a fonte de sua bem-aventurança. Não podemos, ademais, praticar o mal, pois a bem-aventurança está em não fazer o mal. Lembremos disto, amados irmãos!
- Em Dn.12:12, o profeta escatológico afirma que “bem-aventurado o que espera e chega até mil trezentos e trinta e cinco dias”. Temos aqui uma bem-aventurança específica para o povo de Israel, para os últimos dias. Este tempo mencionado pelo profeta corresponde ao período que vai desde a abominação do terceiro templo judaico pelo Anticristo até o estabelecimento do reino milenar de Cristo. Assim, esta bem-aventurança diz respeito ao remanescente de Israel, esta porção que, por se converter a Cristo, será salva e reinará com Cristo por mil anos (Rm.11:25,26).
OBS: “…A divisão dos dias. 1) Um período de 1.260 dias (três anos e meio) até a destruição e prisão da Besta (Dn.12:7,11; Ap.19:19,20). 2) Um período de 1.290 dias (Dn.12:12), acrescentado de mais 45 dias. Está escrito em Mt.24:22, que, ‘se aqueles dias (1.335) não fossem abreviados (para 1.260), nenhuma carne se salvaria; mas, por causa dos escolhidos (os judeus) serão abreviados aqueles dias’…” (SILVA, Severino Pedro da. Daniel versículo por versículo, p.237).
- Conforme podemos depreender, pois, reconhecer a Cristo como Senhor e Salvador é uma bem-aventurança, inclusive para os judeus que, em meio a Grande Tribulação, chegarem vivos até o instante de reconhecer Cristo como o Messias e, por causa disso, reinar com ele por mil anos. Esta bem-aventurança é repetida em Ap.20:5, se bem que aí em relação à Igreja e aos salvos durante a Grande Tribulação.
- Em Ml.3:12, o profeta afirma que os israelitas seriam chamados de “bem-aventurados” pelas nações em virtude da terra deleitosa que seriam, em virtude de trazerem eles os dízimos à casa do tesouro.
- Tem-se aqui, para “alegria” dos “teólogos da prosperidade”, uma alusão material à “bem-aventurança” e, o que mais “alegra” estes “pregadores”, ligada à “entrega de dízimos”. Seria este texto, em meio a tantas contraprovas no Antigo Testamento, um suporte para esta “teologia”?
- Por primeiro, devemos, antes de mais nada, lembrar que um único texto não pode alicerçar qualquer doutrina bíblica, de sorte que, ainda que se tenha uma evidência na passagem de que a bem-aventurança está relacionada a uma entrega de dízimos isto não pode ser erigido a título de doutrina, ainda mais que, como temos visto até aqui, em momento algum houve esta vinculação de bem-aventurança a aspectos materiais.
- Entretanto, para “tristeza” dos “teólogos da prosperidade”, o texto não permite fazer as costumeiras alusões de barganha e “toma-lá-dá-cá” que estes falsos ensinadores costumam fazer para associar a bem-aventurança a um bem-estar material e econômico-financeiro.
- Malaquias está a dizer ao povo de Israel que eles deveriam cumprir a lei e entregar seus dízimos à casa do tesouro, ao templo, o que não estava mais ocorrendo em seus dias. O profeta denuncia esta indiferença do povo com relação ao serviço do templo, que nada mais era que um reflexo, uma demonstração da indiferença que o povo tinha em relação ao próprio Deus.
- Assim, Malaquias, relembrando a lei de Moisés ao povo, afirma que, se os israelitas cumprissem a lei, o Senhor, conforme já havia deixado atestado na própria lei, daria fertilidade à terra, visto que era propósito de Deus abençoar Israel e fazê-la exaltar sobre as demais nações para que, tendo prosperidade material, pudesse, através deste sinal, exercer a sua função de “reino sacerdotal e povo santo”.
- Bem vemos, de pronto, que a questão material, como já estudado neste trimestre, não pode ser transferida para a Igreja, pois Israel era uma nação física, material e que deveria, ante a sua pujança material, mostrar-se às demais nações como sendo o povo do único e verdadeiro Deus. Assim, ainda que se tenha a vinculação da bem-aventurança a um estado material, esta vinculação é tão somente a Israel, ao papel que deveria desempenhar até a vinda do Messias, algo que não pode ser como prometido para a Igreja na dispensação da graça.
- Destarte, esta vinculação não se refere à Igreja, é uma das bênçãos de Israel que não cabe à Igreja o que, por si só, já destrói todo o discurso da “teologia da prosperidade”.
- Mas, não bastasse isso, tem-se que o profeta diz que quem associaria esta abundância material, realmente prometida por força da entrega dos dízimos na casa do tesouro, a uma bem-aventurança seriam as nações, ou seja, os gentios. Destarte, não é Deus quem diz que é “bem-aventurado” quem tem abundância material, mas era assim que os gentios considerariam Israel, a quem caberia ensiná-los como “povo santo e reino sacerdotal” que a “bem-aventurança”, como vemos nas Escrituras, não era a abundância material, mas, sim, o servir a Deus, o ter a Deus como o Senhor.
- Deste modo, vemos que, além do texto não indicar que o crente da dispensação da graça terá abundância material por entregar dízimos, vemos que nem ao menos o texto diz que abundância material é bem-aventurança, pois tão somente afirma que os gentios, para quem prosperidade se confunde com bem-estar material, é que chamariam os israelitas (a quem apenas é dirigida a promessa) de “bem-aventurados” por causa da abundância material.
- E tanto assim é que o outro texto de Malaquias que usa a palavra “bem-aventurado”, a saber, Ml.3:15, também assim denomina não quem seja bem-aventurado, mas quem os rebeldes israelitas estavam a chamar “bem-aventurados”, ou seja, os soberbos, os que cometiam iniquidade.
- Na sua indiferença com relação a Deus, os judeus dos dias de Malaquias estavam achando que era inútil servir a Deus e que valia mais a pena ser como os pecadores, que, apesar de seu pecado, estavam edificados e, aparentemente, escapavam das mãos do Senhor apesar de sua vida iníqua.
- Vemos, pois que Malaquias, nas duas vezes em que fala de “bem-aventurados”, não apresenta realmente “bem-aventuranças”, mas conceitos de “bem-aventurança” que não são respaldados pelas Escrituras, mas que são concepções oriundas de pessoas que não têm qualquer compromisso com Deus.
- A propósito, o conceito apresentado por Malaquias em relação aos judeus que haviam desistido de servir a Deus é um conceito muito próximo ao do salmista Asafe que, por ver a prosperidade dos ímpios e invejá-los, quase se desviou (Sl.73:2,3). Se o salmista quase se desviou, estes judeus mencionados pelo profeta já estavam desviados e, o que é impressionante, com um comportamento que não tem diferença alguma para com os “teólogos da prosperidade”, que também preferiram buscar as riquezas desta vida a servir a Deus.
- Portanto, não só o texto de Malaquias não confirma, ainda que isoladamente, o falso conceito de prosperidade dos “teólogos da confissão positiva”, como ainda nos dá suporte para dizer que tal conceito não tem qualquer respaldo bíblico, é uma demonstração de desvio espiritual.
- Vemos, pois, de forma bem clarevidente, que o Antigo Testamento jamais associou a “bem-aventurança” com aspectos materiais ou físicos, mas, sempre, como uma atitude decorrente de uma vida de comunhão com Deus, de uma vida de submissão à vontade do Senhor, de guarda de Sua Palavra. Será que, à luz do Antigo Testamento, somos “bem-aventurados”?

Ev. Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco



12.1.12

Por que estou Comprometido em Ensinar a Bíblia (2)




Seja fiel, quer seja oportuno, quer não

Nossa tarefa nunca se acaba. Não apenas temos de pregar a Palavra de Deus, mas também precisamos fazê-lo apesar das opiniões divergentes que nos rodeiam. Somos ordenados a nos mostrarmos fiéis quando esse tipo de pregação for tolerado e quando não o for.

Encaremos esse fato: pregar a Palavra agora não é oportuno. A filosofia de ministério norteada por marketing, que está em voga no presente, afirma claramente que proclamar as verdades bíblicas está fora de moda. Exposição bíblica e teologia são vistas como antiquadas e irrelevantes. Essa filosofia de ministério declara: “As pessoas que frequentam a igreja não querem mais ouvir a pregação da Palavra. A geração do pós-guerra simplesmente não aguenta ficar sentada no banco, enquanto à sua frente alguém prega. Eles são frutos de uma geração condicionada pela mídia e precisam de uma experiência de igreja que os satisfaça em seus termos”.

O apóstolo Paulo disse que o pregador excelente tem de ser fiel em pregar a Palavra, mesmo quando isso não está na moda. A expressão que ele utilizou “esteja pronto” (no grego, ephistemi) literalmente significa “permanecer ao lado”, retratando a ideia de prontidão. Era frequentemente usada para descrever uma guarda militar, sempre a postos, preparada para o dever. Paulo estava falando sobre uma intensa prontidão para pregar, assim como a de Jeremias, o qual afirmou que a Palavra de Deus era como um fogo em seus ossos. Isto era o que Paulo estava exigindo de Timóteo: não relutância, e sim prontidão; não hesitação, e sim coragem; não mensagens que motivavam os ouvintes, e sim a Palavra de Deus.

John MacArthur

(John MacArhtur, autor de mais de 150 livros e conferencista internacional, é pastor da Grace Comunity Church, em Sum Valley, Califórnia, desde 1969; é presidente do Master’s College and Seminary e do ministério “Grace to You”; John e sua esposa Patrícia têm quatro filhos e quatorze netos)




10.1.12

Por que estou Comprometido em Ensinar a Bíblia (1)



 

Jamais aspirei ser conhecido como um teólogo, um apologista ou um erudito. Minha paixão é ensinar e pregar a Palavra de Deus. Embora tenha abordado questões teológicas e controvérsias doutrinárias, em alguns de meus livros, nunca o fiz sob o ponto de vista da teologia sistemática. Pouco me inquieta o fato de que algum assunto doutrinário se enquadra nesta ou naquela tradição teológica. Desejo saber o que é bíblico. Todas as minhas preocupações estão voltadas às Escrituras, e meu desejo é ser bíblico em todo o meu ensino.

Pregue a Palavra

Esta é a atitude com a qual abracei o ministério desde o início. Meu pai é um pastor, e, quando lhe disse, há alguns anos, que senti haver Deus me chamado para o ministério, ele me presenteou uma Bíblia em que havia escrito essas palavras de encorajamento: “Pregue a Palavra!” Esta simples frase se tornou um estímulo em meu coração. Isso é tudo que tenho me esforçado para fazer em meu ministério — pregar a Palavra.

Os pastores de nossos dias sofrem tremenda pressão para fazerem tudo, exceto pregar a Palavra. Eles são instruídos pelos eruditos do Movimento de Crescimento de Igreja que têm de alcançar as “necessidades sentidas” dos ouvintes. São encorajados a se tornarem contadores de histórias, comediantes, psicólogos e preletores que motivam. São aconselhados a evitarem assuntos que os ouvintes acham desagradáveis. Muitos já abandonaram a pregação bíblica em favor de mensagens devocionais que têm o objetivo de fazer as pessoas sentirem-se bem. Alguns têm substituído a pregação por dramatização e outras formas de entretenimento.

Mas o pastor cuja paixão é completamente bíblica tem apenas uma opção: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (2 Tm 4.2).

Quando Paulo escreveu essas palavras a Timóteo, ele acrescentou este aviso profético: “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fá bulas” (vv. 3,4).

Com certeza, a filosofia de ministério do apóstolo Paulo não incluía a teoria de “dar às pessoas o que elas desejam”. Ele não instou Timóteo a realizar uma pesquisa a fim de descobrir o que as pessoas queriam; mas ordenou que ele pregasse a Palavra, com fidelidade, repreensão e paciência.

Na verdade, ao invés de insistir que Timóteo idealizasse um ministério que acumularia elogios do mundo, Paulo advertiu o jovem pastor a respeito de sofrimentos e dificuldades! O apóstolo não estava ensinando Timóteo sobre como ser bem-sucedido; estava encorajando-o a seguir o padrão divino. Paulo não o estava aconselhando a buscar prosperidade, poder, popularidade ou qualquer outro conceito mundano de sucesso. O apóstolo instava o jovem pastor a ser bíblico, apesar das consequências.

Pregar a Palavra nem sempre é fácil. A mensagem que somos exigidos a pregar é, com frequência, ofensiva. O próprio Senhor Jesus é uma pedra de tropeço e uma rocha de escândalo (Rm 9.33; 1 Pe 2.8). A mensagem da cruz é uma pedra de escândalo para alguns (1 Co 1.23; Gl 5.11) e loucura para outros (1 Co 2.3).

Não temos permissão para embelezar a mensagem ou moldá-la de acordo com as preferências das pessoas. O apóstolo Paulo deixou isso claro, ao escrever a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2 Tm 3.16 — ênfase acrescentada). Esta é a mensagem a ser proclamada: todo o conselho de Deus (At 20.27).

No primeiro capítulo de sua segunda carta a Timóteo, Paulo lhe dissera: “Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste” (2 Tm 1.13). O apóstolo se referia às palavras reveladas por Deus nas Escrituras — todas elas. Paulo instou Timóteo a guardar o tesouro que lhe havia sido confiado. No capítulo seguinte, o apóstolo aconselhou Timóteo a estudar a Palavra e manejá-la bem (2 Tm 2.15). E, no capítulo 3, Paulo o aconselhava a proclamá-la. Desse modo, todo o ministério de um pastor fiel gira em torno da Palavra de Deus — manter, estudar e proclamar.

Em Colossenses, Paulo, ao descrever sua própria filosofia de ministério, escreveu: “Da qual me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus” (Cl 1.25 — ênfase acrescentada). Em 1 Coríntios, ele foi um passo além, afirmando: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1 Co 2.1-2). Em outras palavras, seu objetivo como pregador não era entreter as pessoas com um estilo retórico ou diverti-las com esperteza, humor, novos pontos de vistas ou metodologia sofisticada; o apóstolo simplesmente pregou a Cristo.

A pregação e o ensino fiel da Palavra de Deus têm de ser o âmago de nossa filosofia de ministério. Qualquer outra filosofia de ministério substitui a voz de Deus pela sabedoria humana. Filosofia, política, psicologia, conselhos despretensiosos, opiniões humanas jamais são capazes de fazer o que a Palavra de Deus faz. Essas coisas podem ser interessantes, informativas, entreter as pessoas e, às vezes, serem úteis, mas elas não constituem o objetivo da igreja. A tarefa do pregador não é ser um canal para a sabedoria humana; ele é a voz de Deus para a igreja. Nenhuma mensagem humana tem o selo da autoridade divina — somente a Palavra de Deus. Como ousa qualquer pregador substituí-la por outra mensagem? Sincerammente, não entendo os pregadores que estão dispostos a abdicarem desse solene privilégio. Por que devemos proclamar a sabedoria dos homens, quando temos o privilégio de pregar a Palavra de Deus?

John MacArthur

(John MacArhtur, autor de mais de 150 livros e conferencista internacional, é pastor da Grace Comunity Church, em Sum Valley, Califórnia, desde 1969; é presidente do Master’s College and Seminary e do ministério “Grace to You”; John e sua esposa Patrícia têm quatro filhos e quatorze netos)








9.1.12

Salmo 150: Dançando no Santuário?




Um dos textos do Antigo Testamento mais usados para defender as danças litúrgicas é o Salmo 150. Ele é lido como prova incontestável de que havia danças como parte da liturgia dos cultos no Antigo Testamento realizados no templo de Deus em Jerusalém. Como consequência, dançar, ter grupos de coreografia e ministério de dança profética durante os cultos das igrejas evangélicas de hoje não somente é permitido, como também ordenado por Deus.

Eis o Salmo 150 de acordo com a versão ARA:

1 Aleluia! Louvai a Deus no seu santuário; louvai-o no firmamento, obra do seu poder.
2 Louvai-o pelos seus poderosos feitos; louvai-o consoante a sua muita grandeza.
3 Louvai-o ao som da trombeta; louvai-o com saltério e com harpa.
4 Louvai-o com adufes e danças; louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas.
5 Louvai-o com címbalos sonoros; louvai-o com címbalos retumbantes.
6 Todo ser que respira louve ao SENHOR. Aleluia!

A argumentação é a seguinte: o verso 1 manda que louvemos a Deus no seu “santuário”, isto é, no templo terreno, o local oficial da adoração a Deus, onde se realizava o culto por Ele determinado. Em seguida, vem uma descrição deste culto, e em meio à relação dos instrumentos utilizados, se menciona no verso 4 as “danças”. A conclusão aparente é que as danças faziam parte do culto oferecido a Deus no seu templo em Jerusalém. Pronto, temos aqui a base para as danças litúrgicas no culto hoje.

Mas, será que é isto mesmo que o Salmo está dizendo? Ou ainda, será que podemos inferir do Salmo que as danças faziam parte da liturgia do templo? E mais ainda, se de fato é isso mesmo que o Salmo está mostrando, temos aqui uma base para as danças litúrgicas e grupos de coreografia em nossos cultos?

Já disse no post anterior “Davi dançou, eu também quero dançar” que não considero o dançar em si como algo pecaminoso, e que não tenho problemas com danças nas comunidades cristãs como expressão cultural e social em ambientes outros que não o culto a Deus. O que pretendo aqui neste post é mostrar que o Salmo 150 não pode ser tomado como base incontestável para a prática das danças litúrgicas e coreográficas nos cultos cristãos.

Vou começar admitindo, por um momento, que o Salmo 150 está falando do templo em Jerusalém e de danças durante o culto. A pergunta, que deveria ter sido feita desde o início, é se o culto cristão toma sua inspiração, gênese e formato do culto do Antigo Testamento. Para mim, a resposta é negativa, embora com qualificações.

O culto do templo é geralmente visto em o Novo Testamento como parte da lei cerimonial, cumprida em Cristo e portanto abolida. A carta aos Hebreus trata desse assunto. Um dos melhores professores de Antigo Testamento que conheço me escreveu recentemente, falando desse assunto, "O que acontecia no Templo não passa nem perto do que acontece nos melhores dos nossos cultos hoje, pois o serviço no Templo encenava a expiação". Os sacrifícios de animais, as cerimônias de purificação, a ordem dos levitas e dos sacerdotes, os rituais de oferecimentos das ofertas, a queima de incenso, a oferta diária dos pães, tudo isso é considerado como parte da antiga dispensação, que era simbólica, típica, e que foi plenamente cumprida em Cristo: não temos mais sacrifícios – o Senhor Jesus ofereceu de uma vez um sacrifício completo, que não precisa ser renovado e repetido; não temos mais sacerdotes e levitas – os cristãos, todos eles, são sacerdotes e levitas. A queima de incenso é substituída pelo louvor que procede nossos lábios. O templo, que era santo e sagrado, agora é a Igreja de Cristo, a comunidade dos eleitos de Deus, e não os templos de nossas igrejas locais.

Ao que tudo indica, os cristãos deram continuidade ao culto no Antigo Testamento apenas no que se refere aos princípios espirituais: a ideia de encontro com Deus, de adoração, de louvor, de solenidade, de alegria, de serviço espiritual como povo do Senhor... mas foram buscar nas sinagogas o formato para esse culto mais simples e despojado. Nas sinagogas, instituição onde cresceram o Senhor Jesus e todos os apóstolos, havia leitura e pregação da Palavra, orações, cânticos e bênção.

Portanto, devemos ter cautela em transferir para o culto cristão aquilo que era feito no templo de Jerusalém – admitindo por um instante que havia danças no culto ali. Por falta desse cuidado, a Igreja Católica tem um culto em muito similar ao do Antigo Testamento: eles têm o sacrifício da missa, sacerdotes que são mediadores entre Deus e homens e que perfazem esse sacrifício, estolas sacerdotais e mitra, queima de incenso, etc.

Mas, na verdade, não é certo que o Salmo 150 esteja falando de danças no templo. Em primeiro lugar, a palavra “santuário” mencionada no verso 1 nem sempre significa o local da adoração em Jerusalém, onde o culto determinado por Deus era realizado de acordo com todos os seus preceitos. A palavra b’kadoshu, significa literalmente “em seu santo”. Logo, sua tradução primeira seria “em seu santuário” e não “em seu Templo”. Precisamos, portanto, considerar a possibilidade de que o santuário de Deus aqui referido não é o local físico do templo, mas o local da sua santa habitação, ou seja, os céus.

Uma evidência a favor desse tradução e interpretação é que no mesmo verso somos chamados a adorar a Deus no “firmamento”, que declara o seu poder. Se considerarmos que aqui no verso 1 temos um caso de paralelismo, tão comum na poesia hebraica, conclui-se que aqui santuário e firmamento são a mesma coisa:


Louvai a Deus no seu santuário;
Louvai-o no firmamento, obra de seu poder.

Encontramos o mesmo paralelismo no Salmo 11.4:

O Senhor está no seu santo templo;
Nos céus tem o Senhor seu trono;

Fica evidente que o santo templo de que fala o salmista são os céus, onde Deus tem o seu trono. Outra passagem é o Salmo 102.20:

O Senhor observa do alto do seu santuário;
do céu ele olha para a terra.

Mais uma vez, é evidente que o santuário referido é o céu, de onde Deus observa os homens. Levando em consideração o escopo do Salmo 150, o paralelismo hebraico e esses outros salmos que identificam o santuário de Deus com os céus, é perfeitamente possível concluir que aqui no Salmo 150 “santuário” se refere à morada celestial de Deus e não ao templo físico de Jerusalém. E logo, o apelo do verso 1 pode ser entendido como dirigido aos homens e anjos para que louvem a Deus, que habita em sua morada celestial.

Em segundo lugar, a palavra que a Almeida Atualizada traduziu como "danças" tem outros significados, alguns dos quais se encaixam muito melhor no contexto. A palavra mahol que aparece no verso 4 e é traduzida como “danças” pela Almeida Atualizada pode significar “flauta”. A própria Almeida Atualizada traduziu mahol como “flauta” no Salmo 149, “louvem-lhe o nome com flauta; cantem-lhe salmos com adufe e harpa”. Admito que os contextos são diferentes, pois no Salmo 150 mahol vem precedido dos adufes, tamborins, que marcam o ritmo. De qualquer forma, se vê que a palavra pode ter outro sentido que não dançar.

Várias traduções do Salmo 150:4 traduziram mahol como “flauta”, como a Almeida Corrigida, a Bíblia de Genebra 1599, a Reina Valera 1909, entre outras (“coral”, Douay-Rheims). Calvino, em seu comentário dos Salmos, preferiu traduzir como “flauta”.

Temos que admitir que a maioria das traduções preferiu “danças”. Em minha opinião, é perfeitamente possível. Todavia, se o salmista estiver se referindo a um instrumento musical, como “flauta”, se encaixa perfeitamente no contexto, pois os versos 3-5 estão mencionando instrumentos musicais usados em Israel, como trombeta, saltério, harpa, adufes, instrumentos de cordas, flautas, címbalos sonoros e címbalos retumbantes. Esses versos não estão dando uma descrição do que se fazia no culto a Deus executado no templo ou no templo, mas apenas enumerando os instrumentos musicais de toda espécie, todos eles convocados para o louvor de Deus.

Se levarmos em consideração as variáveis acima, o Salmo 150 pode ser simplesmente um chamado universal a anjos, homens e animais, para que louvem a Deus. E que os homens o façam com toda sorte de instrumentos musicais. Não está falando do culto no templo terreno e nem de danças.

Alguém poderia legitimamente indagar: "se Deus aceita as danças no seu alto e sublime lugar, no santuário celestial, será que Ele se desagradaria das danças no local da adoração terrena?" A única resposta que eu tenho para isso é que a maneira que temos de saber o que agrada a Deus ou não em seu culto hoje é mediante o estudo do Novo Testamento. O que Deus prescreve para o culto dos cristãos? Certamente não encontraremos uma liturgia detalhada, uma sequência dos atos de culto. Mas encontraremos os princípios espirituais que governam esse culto e os elementos que dele devem constar. E entre esses, não acharemos as danças.

Mas, não quero insistir demais nesse ponto. O que eu gostaria apenas de deixar claro neste post é que o Salmo 150 não pode ser usado como uma prova cabal e final de que as danças faziam parte do culto a Deus oferecido em seu templo ou seu templo em Jerusalém e que em consequência devemos ter danças nos cultos cristãos de hoje.

Não considero esse assunto tão central à fé que eu tenha que me separar de quem pensa diferente. Se você quer dançar no culto, dance. Não vou considerá-lo um pagão por isso. Mas não me venha dizer que é bíblico e que aqueles que pensam diferente de você serão condenados como Mical, que criticou Davi quando dançava.

(Paraibano, casado com Minka, pai de Hendrika, Samuel, David e Anna. Pastor presbiteriano (IPB), mestre e doutor em Interpretação Bíblica (África do Sul, Estados Unidos e Holanda), professor de exegese, Bíblia, pregação expositiva no Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper, da IPB, autor de vários livros.)
*Texto do artigo adaptado



8.1.12

A campanha




O pastor de certa igreja, apesar de não ser tão frequente assim nos cultos semanais, percebeu que os irmãos a quem devia apascentar rareavam nesses cultos. No domingo era aquela maravilha. Igreja lotada; todo mundo adorando a Deus; sons de Aleluia pra cá; outros de Glórias pra lá. Pelo menos, é o que parecia. E assim ia: “uma bênça”, como ele próprio dizia. Mas isso era apenas no domingo; domingo à noite, digo, porque de manhã cedo, da mesma forma que no meio da semana, era uma tristeza.

Até que esse pastô pensou consigo: “Preciso dar um jeito pra mudar isso... Já sei! A única forma de chamar esse povo é fazendo uma campanha”.

- Ótima ideia, amor!, concordou sua esposa.

- É isso mesmo, abençoado!, alegrou-se o co-pastor, quase fazendo o “E zaz; e zaz” do Chaves.

- Pela Bíblia, acho que não é bem assim que vai conquistar os irmãos, ponderou o professor de Escola Dominical.

- Larga de ser murmurador, irmão – disseram alguns cooperadores e os líderes de conjuntos.

Então, antes de terminar o culto dominical vespertino seguinte, o “anjo da igreja” (como costumam se chamar e serem chamados), tão decidido quanto Roboão, anunciou:

- Irmãos, eu estava orando a Deus, pedindo direção, e eu sei que Ele vai derramar copiosas bença neste lugar. E para isso, vamo fazê uma campanha. O tema vai sê o seguinte:

“Haveria alguma coisa difícil ao Senhor?”
“Gênesis, capítulo 18, versículo 14.
12 sextas-feiras de ADORAÇÃO e VITÓRIA!”.

E mandou que estendessem a faixa.

Depois, o santo pastor informou quem seriam os preletores, fato que fez muitos “glorificarem”. Praticamente toda a igreja ficou entusiasmada com a nova campanha, principalmente por causa do tema... e também dos que pregariam, todos costumeiramente “usados por Deus grandemente!”.

Primeiro dia da famigerada campanha. Faltou lugar pra tanta gente. O povo se acotovelava “pra dar uns Glória” e ver o pregador profetizar a cada cinco, dez minutos e cantar dois, três hinos. Vez por outra o pregador dizia: “Todas as coisas vos serão acrescentadas! Receba a chave da vitória nesta nooooiteeee!!!” O delírio e a histeria tomava conta dos irmãos, que saíam felizes do templo... (Infelizmente, não tem espaço pra contar tudo).

A cada sexta-feira, uma meia-dúzia de irmãos recebia sua bênção. Era carro novo pra cá, porta aberta de emprego pra lá, aumento de salário ali, promessas de cura acolá. Sempre após 20 minutos de petição de ofertas.

Um pregador, na oitava ou nona sexta-feira, até pregou necessidade de arrependimento, quase se parecendo com a pregação do Senhor Jesus Cristo, de João Batista, de Pedro e de tantos outros. A única diferença entre ele e os demais é que o arrependimento deveria acontecer a fim de os irmãos enfermos serem curados. Fora essa pequena diferença, nada mais.

Esse recebe-recebe foi assim até o fim da campanha. Sempre com o templo lotado na hora do louvorzão e na hora da Palavra, claro! O pastor daquela igreja concluiu: “Dessa vez eu ganhei o povo!”

Aqueles irmãos realmente deram sinais de interesse e não faltaram em nenhum dia campanha! A avaliação dos obreiros foi unânime: “Essa campanha é uma bênça! Não tem nada difícil ao Senhor!”

Terminados os doze dias, na semana seguinte, no domingo na verdade (porque o pastor não tinha podido comparecer na sexta-feira subsequente, devido às suas bênçãos), ele estranhou um obreirozinho lhe dizer que apenas metade dos irmãos viera. Afinal, ele havia tido a grande ideia da campanha... Mas ficou sem entender o fenômeno.

De qualquer modo, a frequência semanal continuou (quer dizer, voltou) a rarear. Sabe aquele negócio de Pedro, Tiago e João? Então... Apenas aqueles mesmos irmãos que já iam aos cultos da semana antes da campanha estavam presentes dia após dia. Esses mesmos estavam na oração, nos cultos de ensino, nas EBD, no evangelismo.

E o restante? O restante estava cuidando das bênçãos recebidas... Mas não se espante: eles estavam à noite no domingo, ainda que meia-horamente atrasados...

Os tais pediram pro pastor lançar uma outra campanha, essa de sete domingos vespertinos, com o tema: “Mas graças a Deus que nos dá vitória! (1Co 15.57)...”.



Artur Freire Ribeiro



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