13.2.13

MADURE: "A graça de Deus nos capacita a lidar com o sofrimento", pr. Hernandes Dias Lopes


A graça de Deus nos capacita a lidar com o sofrimento

A vida não é indolor. Nossa jornada neste mundo não é feita por caminhos atapetados, mas por estradas juncadas de espinhos. Palmilhamos desertos tórridos, descemos a vales escuros e atravessamos pinguelas estreitas, sobre pântanos perigosos. Aqui, muitas vezes, alimentamo-nos de nossas próprias lágrimas. A dor cruel nos açoita com rigor desmesurado. A dor das perdas, do luto e da saudade dói mais do que a dor que fustiga nosso corpo. A dor das lembranças amargas, das doenças crônicas e do pecado que tenazmente nos assediam, acicatam nossa mente, nosso corpo e nossa alma.

O sofrimento mostrou sua carranca de forma dolorosa no segundo mais trágico incêndio ocorrido no Brasil. Nos albores do dia 28 de janeiro de 2013, uma tragédia aconteceu em Santa Maria, cidade universitária do próspero estado do Rio Grande do Sul. A boate Kiss pegou fogo e mais de duzentos e trinta jovens e adolescentes pereceram, asfixiados pela fumaça tóxica. Sonhos foram interrompidos. Carreiras brilhantes terminaram abruptamente. Casamentos marcados não puderam se concretizar. Pais que esperavam seus filhos voltar ao lar, acordaram sobressaltados pela amarga notícia, de que seus filhos haviam morrido naquela fatídica noite. O sofrimento foi tão grande que a nação inteira chorou diante dessa tragédia. Ninguém, por mais forte, consegue lidar com esse sofrimento, estribado em suas próprias forças. Somente a graça de Deus pode nos assistir nessas horas. Somente a graça de Deus pode nos dar ânimo para prosseguir.

O apóstolo Paulo, depois de um passado sombrio, quando perseguiu, prendeu e deu seu voto para matar muitos discípulos de Cristo, foi convertido no caminho de Damasco. Tornou-se o maior missionário e plantador de igrejas da história do Cristianismo. Sua vida, porém, foi timbrada pelo sofrimento. Foi perseguido, preso, açoitado, apedrejado e fustigado com varas. Por onde passou, enfrentou pressões e ameaças. O fato de ser um homem cheio do Espírito não o isentou de sofrer. Em sua última carta, despedindo-se de seu filho Timóteo, preso numa masmorra romana, cônscio de que enfrentaria o martírio, abriu seu coração para dizer que estava enfrentando solidão, abandono, privações, traição e ingratidão. Apesar de tão severo sofrimento, sabia que não caminhava para um fim trágico, mas avançava rumo à glória para receber do reto Juiz, sua recompensa. Foi a graça de Deus que o manteve de pé nas renhidas batalhas da vida. Foi a graça de Deus que o capacitou a cantar na prisão. Foi a graça de Deus que o consolou nas amargas provações da vida. Foi a graça de Deus que o revestiu de forças para cumprir cabalmente seu ministério. Foi a graça de Deus que o encheu de doçura e esperança mesmo em face da morte.

Nenhum homem tem capacidade de lidar com o sofrimento à parte da graça de Deus. Somos frágeis vasos de barro. Não podemos ficar de pé escorados no bordão da autoconfiança. Sem a graça a Deus e sem o Deus de toda a graça sucumbimos à dor. Mas, pela graça somos consolados no sofrimento para sermos consoladores. Tornamo-nos receptáculos do conforto divino para sermos canais dessas ternas consolações. Nem sempre, porém, Deus nos poupa do sofrimento. Nem sempre temos alívio da dor. Nem sempre a cura se torna uma realidade. Mas a graça de Deus jamais nos falta. A graça de Deus é melhor do que a vida. A graça de Deus nos basta. Nessas horas, o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza. Como Jó, podemos gritar, mesmo no torvelinho da nossa dor: “Eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará. Vê-lo-ei por mim mesmo”. Podemos dizer como Pedro: “Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar”. Podemos, dizer como Paulo: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação”. Oh, bendita graça! Graça sublime! Graça que nos salva, nos fortalece e nos capacita e lidar vitoriosamente com o sofrimento.

8.2.13

Os Testes do Amor a Deus (4/6)


9. Amor por aquilo que Deus ama

Se nós somos amantes de Deus, nós amamos aquilo que Deus ama.
(i) Nós amamos a Palavra de Deus. Davi estimava a Palavra pela sua doçura, acima do mel (Salmo 119.103), e pelo seu valor, acima do ouro (Salmo 119.72). As linhas da Escritura são mais ricas do que minas de ouro. Nós devemos amar a Palavra apropriadamente; ela é a estrela-ímã que nos atrai para o céu, é o campo no qual a Pérola está escondida. O homem que não ama a Palavra, mas a considera de maneira excessivamente estrita e deseja que alguma porção da Bíblia fosse dela arrancada (como um adúltero desejaria fazer com o sétimo mandamento), esse não tem sequer a menor fagulha de amor em seu coração.

(ii) Nós amamos o dia de Deus. Nós não apenas guardamos um sabbath, mas nós amamos um sabbath“Se chamares ao sabbath deleitoso” (Isaías 58.13). O sabbath é aquilo que mantém a face da religião entre nós; esse dia deve ser consagrado como glorioso ao Senhor. A casa de Deus é o palácio do grande Rei, e no sabbath ali Deus revela a Si mesmo através da treliça. Se nós amamos a Deus, nós estimamos o Seu dia sobre todos os outros dias. Toda a semana seria escura se não fosse por esse dia; nesse dia, o maná cai numa porção dobrada. Nele, de um modo especial, as comportas do céu permanecem abertas, e Deus desce numa chuva dourada. Nesse dia bendito, o Sol da justiça se levanta sobre a alma. Oh, como um coração gracioso aprecia esse dia, feito com o propósito de desfrutarmos de Deus.

(iii) Nós amamos as leis de Deus. Uma alma graciosa tem prazer na lei porque ela restringe os seus impulsos pecaminosos. O coração estaria pronto a correr descontroladamente para o pecado, se ele não tivesse alguns benditos freios postos pela lei de Deus. Aquele que ama a Deus ama a Sua lei – a lei do arrependimento, a lei do negar-se a si mesmo. Muitos dizem amar a Deus, mas odeiam as Suas leis.“Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas” (Salmo 2.3). Os preceitos de Deus são comparados a laços; eles amarram os homens ao seu bom comportamento; mas os ímpios acham esses laços apertados demais, portanto dizem: “Vamos rompê-los!” Eles fingem amar a Cristo como Salvador, mas O odeiam como Rei. Cristo nos fala sobre o Seu jugo (Mateus 11.29), mas os pecadores gostariam que Ele pusesse uma coroa em suas cabeças, e não um jugo em seus pescoços; que Ele fosse um estranho rei que governasse sem leis.

(iv) Nós amamos o retrato de Deus, nós amamos a Sua imagem resplandecendo nos santos. “Todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido” (1João 5.1). É possível amar um santo e, ainda assim, não amá-lo como santo; nós podemos amá-lo por alguma outra coisa, pela sua ingenuidade ou porque ele é afável e generoso. Um animal ama um homem, não porque ele é um homem, mas porque ele o alimenta e lhe dá forragem. Mas amar um santo na qualidade de santo, isso é um sinal de amor a Deus. Se nós amamos um santo por sua santidade, por possuir nele algo de Deus, então nós o amaremos nestas quatro situações:

(a)    Nós amaremos um santo, embora ele seja pobre. Um homem que ama o ouro amará o ouro, mesmo que ele esteja enrolado em trapos; assim também, mesmo que um santo esteja em trapos, nós o amamos, porque há nele algo de Cristo.
(b)    Nós amaremos um santo, embora ele tenha muitas falhas pessoais. Não há perfeição aqui. Em alguns, prevalece a ira impulsiva; em outros, a inconstância; e em outros, excessivo amor pelo mundo. Um santo nesta vida é como o ouro ainda em minério, muita escória de fraqueza está agarrada a ele; ainda assim, nós o amamos pela graça que nele está. Um santo é como um belo rosto com uma cicatriz: nós amamos a bela face da santidade, embora nela haja uma cicatriz. A melhor esmeralda tem as suas manchas, as estrelas mais brilhantes têm as suas cintilações, e o melhor dos santos tem as suas falhas. Você que é incapaz de amar alguém por causa de suas fraquezas, como poderia Deus amá-lo?
(c)    Nós amaremos os santos, embora, em algumas coisas menores, eles discordem de nós. Talvez um outro cristão não tenha tanta luz quanto você, e isso possa fazê-lo errar em algumas coisas; você irá rapidamente desprezá-lo porque ele não pode ainda vir para a sua luz? Onde há união no essencial, deve haver união nas afeições.
(d)    Nós amaremos os santos, embora eles sejam perseguidos. Nós amamos o metal precioso, mesmo que ele esteja na fornalha. São Paulo carregou em seu corpo as marcas do Senhor Jesus (Gálatas 6.17). Aquelas marcas eram, como as cicatrizes do soldado, honoráveis. Nós devemos amar um santo tanto nas cadeias quanto nos palácios. Se nós amamos a Cristo, nós amamos os Seus membros perseguidos.

Se nisso consiste o amor a Deus, em amarmos a Sua imagem brilhando nos santos, oh, então quão poucos amantes de Deus podem ser encontrados! Acaso amam a Deus aqueles que odeiam os que são semelhantes a Deus? Acaso amam a pessoa de Cristto aqueles que estão cheios de um espírito de vingança contra o Seu povo? Como se pode dizer que uma mulher ama o seu marido, se ela rasga o seu retrato? Certamente, Judas e Juliano [1] ainda não estão mortos, o seu espírito ainda vive no mundo. Quem é considerado culpado, senão os inocentes?! Que crime é pior do que a santidade, se o diabo está entre os jurados?! Os homens ímpios parecem ter grande reverência pelos santos do passado; eles canonizam os santos mortos, mas perseguem os vivos. Em vão os homens professam o credo, e dizem ao mundo que amam a Deus, quando eles abominam um dos artigos do credo, qual seja, a comunhão dos santos. Certamente, não há um maior sinal de que um homem está pronto para ir ao inferno do que este: não apenas carecer da graça, mas também odiá-la.
________________________
[1] Provavelmente, uma referência ao imperador romano Juliano, conhecido como “o Apóstata”.

Por Thomas Watson. Original: A Divine Cordial By Thomas Watson
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...